ISSN: 1646-3137  
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Eduardo Camilo, VIVÓ CARTAZ - MANIFESTO EM TORNO DE UM ROMANTISMO POLÍTICO

VIVÓ CARTAZ !!
MANIFESTO EM TORNO DE UM ROMANTISMO POLÍTICO

Eduardo J. M. Camilo, Universidade da Beira Interior

20.11.97

 

Introdução

Esta palestra insere-se no âmbito das actividades do Centro de Estudos Sociais e contou com a preciosa colaboração da Comissão Nacional de Eleições.

Trata-se de uma comunicação que deve ser encarada de duas formas: como mais um projecto do Centro de Estudos Sociais, desta feita, ligado a problemáticas da área das ciências da comunicação que, pessoalmente, muito me satisfaria se fossem acarinhadas pelos nossos alunos e prosseguidas em termos de conferências, palestras, exposições, publicações e outras produções culturais pelos meus ilustres colegas. Todavia, ela deveria ser também entendida como fazendo parte de um projecto relacionado com a criação de um arquivo audiovisual regional sobre o fenómeno político e a comunicação. Arquivo esse, que procuraria criar um espólio documental sobres as dinâmicas políticas da Beira Interior. Nele não só estaria material eleitoral, como também gravações, filmes, artigos de jornais, fotografias, etc. Numa palavra: tudo aquilo que pudesse contribuir para ilustrar as dinâmicas políticas que existem nesta região. É por isso que estamos gratos pela presença da Dra. Fátima Abrantes da Comissão Nacional de Eleições, na medida em que nos interessa começar a estabelecer protocolos de colaboração com instituições como esta, que nos possibilitem aceder e reproduzir toda a documentação sobre a temática atrás referida.

Passemos agora àquilo que nos traz aqui. Nesta palestra vou reflectir as implicações do aparecimento de novos suportes comunicacionais -nomeadamente, do outdoor político- no âmbito dos fenómenos da legitimação eleitoral, mais especificamente, em relação às eleições legislativas de 1995. Numa primeira parte, procurarei caracterizar um outdoor político, salientando que o seu regime de significação se inscreve mais na linguagem da publicidade e no regime de funcionamento do marketing político, do que na linguagem da propaganda.

Numa segunda parte, salientarei o regime de percepção dos fenómenos políticos que o outdoor originou, juntamente com outros fenómenos colaterais da comunicação política, resultantes, essencialmente, do aparecimento das televisões privadas. Procurarei, igualmente, reflectir de que forma é que este regime de percepção contribuiu para uma espectacularização da política. Aproveito já para apresentar a minha tese a propósito deste assunto: se é certo que o outdoor se insere naquilo que designamos por política espectáculo, consideramos, simultaneamente, que ele também funda uma total transparência do sentido político, que contribui para uma passividade política e comunicacional do cidadão. Esta passividade está logo subjacente ao próprio acto de interpretação do sentido político onde, semanticamente, tudo está explícito e se oferece a uma leitura. Tal situação leva-nos interrogar onde está a retórica da política espectáculo?

Por fim, numa terceira parte, farei contrastar ao outdoor, o cartaz de propaganda, com tudo aquilo que ele representa em termos de implícitos na mensagem e no envolvimento do sujeito na actividade política. Reconheço que a maneira como delimito a propaganda política e descrevo o cartaz é, possivelmente, demasiado restrita. Todavia, penso ser essa a única maneira, na medida em que considero que dessa forma a propaganda está contextualizada historicamente, permitindo-nos ultrapassar assim, as asserções de carácter valorativo com que habitualmente tanto a propaganda, como o cartaz político são analisados. Esta delimitação passa por uma associação da propaganda e do cartaz político à utopia política e aos fenómenos da legitimação carismática. Trata-se de adoptar uma concepção totalmente distinta da forma como ela tradicionalmente é concebida, isto é, como instrumento de coerção e de violência lógica ao serviço de regimes políticos de tipo autoritário.
 
 

1 - Sobre o outdoor político

Nas últimas eleições legislativas verificou-se um fenómeno interessante. As quatro forças partidárias, isto é, aqueles que estão em melhor posição para desenvolver uma acção política, utilizaram sistematicamente o outdoor político nas suas campanhas eleitorais. Para além disso, existem provas seguras que algumas delas recorreram a profissionais da publicidade para conceber as suas campanhas eleitorais. Estou a referir-me, por exemplo, ao Edson Athayde que, como todos sabemos, foi o responsável pela concretização das campanhas eleitorais do Partido Socialista. Surge-nos uma primeira interrogação sobre isto. Até que ponto a implementação do outdoor na legitimação político-eleitoral poderá ser significativa de uma mutação estrutural na forma de comunicar a política e de fazer campanhas eleitorais?

O fenómeno do outdoor nas eleições não é novo. Noutros países há muito que este suporte de comunicação comercial e política conquistou um estatuto próprio nas campanhas eleitorais. Só para citar um país, destaco a Inglaterra onde ele foi exaustivamente explorado, aquando da primeira vez que a Sra. Tatcher subiu ao poder.

De tudo o que foi escrito, convém salientar que em Portugal o outdoor já era utilizado nas campanhas eleitorais desde a década de oitenta. Todavia, ele era principalmente utilizado nas campanhas autárquicas ou nas presidenciais, com o objectivo de familiarizar o eleitorado com um determinado candidato. A grande novidade surge com a utilização do outdoor nas eleições legislativas. Por outras palavras: ele já não é usado apenas em estratégias de idolatração política. Passa também, a ser usado para uma função que, tradicionalmente, era do pelouro do cartaz político: a da promoção de conteúdos políticos de carácter mais ideológico ou programático.

Entendemos por um outdoor político, um cartaz de grandes dimensões que exige uma estrutura material de afixação. A sua afixação não é selvagem, no sentido de potencialmente poder ser afixado em qualquer lugar, como aliás, acontecia com o cartaz político. Como primeira característica podemos afirmar que a sua afixação é regulada e planificada, tal como um outdoor publicitário, por um departamento de meios tecnicamente habilitado para isso. A disposição espacial do outdoor não é arbitrária; ela está subordinada a um cálculo, a um critério estratégico. Consideramos que esta característica é importante, porque faz aproximar, com todas as implicações que daí advêm, a comunicação político-eleitoral do calculismo tecnicista que caracteriza a publicidade comercial. Calculismo tecnicista é a qualificação atribuída por nós, ao tipo de valores que norteiam esta técnica de comunicação, enquanto actividade profissional. São esses valores que vão conceber e imprimir um cunho funcionalista à comunicação. Na publicidade comercial a mensagem é concebida para solucionar problemas concretos e atingir objectivos claramente estabelecidos e mensuráveis. Por outra palavras, ela é concebida como um instrumento técnico, como uma ferramenta. De agora em diante, é como se a comunicação política perdesse toda a sua espontaneidade, no sentido de passar a ser edificada numa perspectiva de custo e de benefícios. Não é por acaso que actualmente, já ninguém fala de propaganda política, mas apenas da publicidade ou do marketing político. É como se o ideólogo tivesse sido substituído pelo técnico de marketing, o artista pelo designer e o militante pelo manequim. A comunicação política aproxima-se cada vez mais de paradigmas funcionalistas. É certo que na propaganda a comunicação também visa atingir objectivos, sendo caracterizada por uma certa funcionalidade. É preciso não esquecer que nas campanhas eleitorais, a comunicação está inserida em fenómenos de legitimação com o objectivo de concretizar uma certa legitimidade. Todavia, aquilo que o outdoor inaugura no marketing político, parece ser um predomínio da técnica sobre política. A comunicação passa a ser pautada pelo princípio da eficácia. Se na propaganda política contavam mais os valores últimos e ideais, para os quais uma acção política rumava: o socialismo, a luta de classes, o conservadorismo, etc, valores esses que se poderia discordar, veementemente, ou não, e pelos quais se reconhecia o quadrante ideológico da força política, no marketing político a situação é diferente. No princípio da eficácia inerente esta nova forma de comunicação política, parece que contam mais os meios com os quais a força política se apresenta. Explicando de outra maneira: parece que contam mais os argumentos relacionados com a demonstração da capacidade para resolver problemas concretos. Nestes novos tempos até parece que os políticos gostam de se retratar como super-homens e os partidos políticos preferem ser apresentados como empresas de serviços políticos. O outdoor inaugura na política um utilitarismo realista e demasiado sério, que entra em ruptura com uma das características mais importantes da política, o idealismo imaginado. Uma força partidária deixa de ter uma ideário para possuir um posicionamento, ela deixa de ter uma doutrina para passar a possuir uma imagem de marca. É por isso que uma das grandes dificuldades que tive ao analisar alguns dos outdoors de 1995, residiu na inadequação da mobilização dos meus quadrantes político-ideológicos na leitura das mensagens. Efectivamente, com excepção dos outdoors da CDU, onde no slogan ainda é possível repescar algum parentesco ideológico (Fig. 1), em todas as outras forças políticas o ideário político está irremediavelmente extinto. Como é possível reduzir a ideologia social democrata a variantes de sentido como "mais", "melhor" e "confiança" (fig.2). O mesmo acontece com o socialismo reduzido a piedosas mensagens de tipo emocional com recursos a implícitos banais, como é o caso da emoção, do retorno às pessoas comuns, etc., (fig.3) senão soubéssemos nós que naquela época estes argumentos contrastavam com a imagem de marca do PSD, isto é, do cavaquismo.
 
 


 

Fig 1: " Vota CDU. A esquerda necessária"




É o caso de uma distanciação "degaulista" das massas e dos problemas mais comezinhos da vida do dia a dia e da intriga política, de um certo heroísmo político, bem patente na metáfora do "homem do leme", para além de um racionalismo tecnocrata bem explicitado aliás, na velha máxima do "nunca me engano e raramente tenho dúvidas".

Fig.2- "PSD: Mais e melhor para Portugal"


 

Fig. 3- "PS: Quem vota com a cabeça vota com o coração" e "A nova maioria é nossa".



É porém, no PP que encontro a melhor ilustração do fenómeno da imagem de marca da política, totalmente expurgada de referentes ideológicos. Como na política o lugar da imaginação desapareceu, sendo substituído por um realismo político, afigura-se-me que, cada vez mais, os argumentos políticos se tornam situacionistas. Nesta medida, eles passam a estar conjunturalmente ligados à situação política da altura, isto é, aos jogos de forças e ao mercado das necessidades políticas. Para lá da ideologia o que passa contar é o posicionamento político, entendido como o aproveitamento da oportunidade política. É por isso que, em boa parte dos slogans do PP, um partido conservador, encontro simultaneamente, marcas ideológicas características da direita e da esquerda. Serve de exemplo o outdoor desta força política sobre o desemprego (fig4), um argumento que, ideologicamente, é característico dos partidos de esquerda. A partir desse outdoor talvez fosse possível, porém, desenvolver algumas subtilezas ideológicas e afirmar, a partir da mensagem, que o desemprego altamente qualificado dos licenciados e a inserção dos jovens no mercado de trabalho, seriam argumentos relacionados com a direita, enquanto que o desemprego de longa duração e as condições de trabalho, já seriam mais argumentos de esquerda .

Fig. 4: "PP: Desemprego à vista".




Coexistindo com a problemática do desemprego, encontramos outras reivindicaçoes que já são de direita: é o caso da crítica à própria política ou, implicitamente, à forma como ela se tem vindo a degradar, um argumento tipicamente de direita e da própria monarquia. Voltamos a salientar a confusão das ideologias no caso do cartaz do mapa de Portugal (fig. 5). A aparentemente, o PP reivindica o nacionalismo, uma marca ideológica característica de direita. Todavia, nesta reivindicação paradoxalmente, surge um ponto de contacto com o partido comunista na sua luta contra o europeísmo.

Fig.5. "PP: numa coisa PS e PSD estão de acordo".




No marketing político que o outdoor parece inaugurar, verifica-se um processo semelhante ao da publicidade comercial. A publicidade comercial é uma máquina que transforma: apropria-se dos objectos com uma dimensão tecnológica e económica específica e transforma-os em signos com determinadas identidades e imagens de marca. Os objectos deixam de valer por aquilo que são para passarem a valer por aquilo que significam. Na política parece-me que o fenómeno é semelhante: os partidos deixaram de ser reconhecidos por aquilo que sempre foram e afirmaram, para passarem a ser legitimados a através das suas imagens de marca. Mas ao contrário do que se poderia pensar, não é por este fenómeno que se verifica um empobrecimento da própria política. Pelo contrário, penso que aquilo que ocorre é uma mutação substancial da actividade política. As mais valias que o marketing político introduz pelo outdoor, são sintomáticas da transformação dos quadrantes políticos tradicionais. Repescando o sentido profético de um slogan do próprio PP, com o outdoor e o marketing político, "mudam os políticos e as políticas" (fig. 6). Resta, portanto, tentar averiguar quais são essas políticas o outdoor passa a fundar.

Fig 6. "PP: connosco mudam as políticas e os políticos"




Para podermos responder a esta questão passamos a reflectir sobre o regime de sentido político que o outdoor inaugura e sobre a maneira como ele pode ser representativo de uma nova forma de fazer política.

Tal como o cartaz político, o outdoor é uma imagem. Considero-os como imagens devido ao facto destes suportes de comunicação remeterem para uma leitura mobilizando exclusivamente a visão, o olho. Esta característica é importante, porque vai implicar uma espectacularização dos fenómenos da legitimação política. Por outras palavras, com o cartaz e o outdoor assistimos a uma restrição da experiência política a uma exibição. Se a política passa a ser um objecto do olhar, a comunicação política tem por função direccionar esse olhar. De tudo o que está dito, fica por esclarecer a natureza do olhar que a espectacularização da política implica. É um olhar que lê, ou é um olhar que vê? Esta distinção é importante, porque permite diferenciar a forma como a política é apreendida e a maneira como ela é exibida. Quando o espectáculo da política se dá perante um olhar que lê, a comunicação da política é semelhante a uma escrita, em que o sentido da política tende a esgotar-se todo no momento da leitura. Esta escrita é semelhante a uma lógica que se assume pela sua clareza. Considero este o regime de apreensão típico do outdoor político. A comunicação política que o outdoor política instaura é essencialmente, um acto de informação. Quase que somos levados a entender aqui a informação na sua dimensão cibernética, em que ela está reduzida a uma circulação de sinal político, quer em termos de transmissão, quer em termos de recepção, com tudo o que isso implica de empobrecimento das dimensões sociais, culturais e históricas da política. Não existe aqui qualquer tipo de implicação do receptor quer com a mensagem, quer com o emissor político. A mensagem esgota-se no próprio acto da leitura e, posteriormente, no comportamento eleitoral. Subjacente a esta situação estão formas lineares da comunicação: o outdoor político, enquanto estímulo, suscita uma leitura, isto é uma resposta. Esta resposta, sabe-se lá por que mecanismo semelhante a uma caixa negra, daria, por sua vez, origem a uma reacção política, exactamente da mesma forma que a transmissão de um estímulo provocaria um determinado comportamento. A eficácia da comunicação do outdoor estaria assim, relacionada com o estímulo que se conseguisse suscitar. Em nome do estímulo, o outdoor tem de ter impacto, assegurado pela sua grande dimensão, pela cor, pelo grafismo, pela mensagem. Do ponto de vista semântico a própria mensagem não pode ter equívocos: ela tem de se assumir pela sua total transparência. A propósito desta transparência, seria interessante paralelamente a uma evolução histórica do cartaz e do outdoor políticos, averiguar até que ponto a afirmação do outdoor na comunicação política, afirmação essa associada também, ao aparecimento dos canais privados de televisão, não reduziu a comunicação política a estratégias que se articulam sobretudo, numa exibição espectacular da política. Por outras palavras, seria interessante verificar até que ponto é que as formas discursivas da política são cada vez mais formas que se dão a ver, transparentemente, numa leitura, cujo objectivo primordial é criação do impacto político, a transmissão linear do sentido político, mais que não seja pela redundância do sinal. Em nome da transparência do sentido político que se pretende alcançar, o publicitário ou o técnico de marketing tem uma preocupação fundamental em qualquer campanha política: a clareza. Mesmo que suscite propositadamente um equívoco político, por exemplo para criar surpresa, ele é sempre feito em nome de uma clareza transparente de um sentido. Se há coisa pior na carreira de um publicitário ela relaciona-se com o facto do público não ter percebido ou não ter acreditado na mensagem.

A transparência do sentido político leva, incontornavelmente, não só a uma banalização da mensagem política que de agora em diante, passa a ser concebida segundo o princípio do menor denominador comum, como também a um matraqueamento, repetição constante, da mensagem, seja ela política ou publicitária. Com isto não quer dizer que não exista uma retórica política no outdoor, que tanto é possível encontrar numa palavra, como na própria imagem. Todavia, essa retórica não é uma exploração da dimensão poética de uma linguagem política, de forma a envolver o sujeito no discurso e na própria actividade da política. Não é uma retórica que o leve a ultrapassar a mera apreensão e vivência visual da política. Pelo contrário, ela é uma retórica mimética com o propósito de ilustrar, o mais claramente possível, a intencionalidade e o programa político do próprio partido, isto é, o próprio produto e ponto políticos, ocultando, o mais que possível, o preço político a pagar. Por tudo isto, gostaríamos de concluir que o outdoor inaugura uma comunicação que se afirma, antes de mais, por uma preocupação pela explicitação. É como se a afirmação do outdoor político fosse acompanhada pela emergência de um tabú na política que passa por tudo aquilo que não pode ser lido e que é da ordem do segredo. Se por acaso existem implícitos, eles estão para lá de uma visibilidade política, são, na prática, ilegíveis, na medida em que não se dão a ler, que não têm sentido político e que por serem insignificantes, deixam de ser objecto de uma leitura política. Em relação a este assunto da leitura, gostaríamos de salientar o papel dos mass media, nomeadamente dos comentadores e dos editores, entidades que no campo dos media, têm a função de produzir leituras políticas: ler, no sentido de descodificar sentidos. Cada um à sua maneira, estão inscritos nesta dimensão espectacular da política. Todo este fenómeno é interessante, porque contrasta totalmente com os regimes de significação que o cartaz de propaganda instaura e que estão exclusivamente articulados em torno do mistério e do segredo políticos.

Continuemos ainda com o outdoor. Já atrás referimos que tendemos a inscrevê-lo em paradigmas funcionalistas da comunicação. Tratam-se de modelos comunicacionais de tipo linear, relacionados com o marketing e a publicidade. Passemos a profundar um pouco mais este assunto. Nestes modelos, a comunicação é entendida como um recurso técnico relacionado com a concretização de objectivos, sejam estes de tipo comercial ou político. Mesmo com a espectacularização que o outdoor envolve, tendemo-lo a integrar no âmbito daquilo que designamos pelo modelo de comunicação de Lasswell, isto é, em formas bilaterais de comunicação assimétrica, onde não só existe uma clara divisão de papeis comunicacionais (o emissor emite, o receptor recebe e reage), como uma passividade do receptor no âmbito da situação de comunicação. A bilateralidade não tem a ver com a interacção, isto é, com a possibilidade do receptor poder reagir em relação às mensagens e, sobretudo, às intencionalidades. Se tal acontecesse o receptor, enquanto cidadão político, deixaria de estar reduzido à sua dimensão de espectador que assiste a um espectáculo político. Ele seria antes um sujeito interveniente nesse espectáculo, tal como acontece, aliás, na propaganda. Ao ser um sujeito activo, não só poderia intervir nos próprios fenómenos comunicacionais da legitimação eleitoral, mas também, através deles, participar na própria política. Em vez disso, a bilateralidade que o modelo de Lasswell introduz, está directamente relacionada com a análise da conduta do receptor, quer enquanto sujeito que recebeu uma mensagem política e a entendeu, quer enquanto cidadão que poderá desenvolver um comportamento político, conforme às intencionalidades subjacentes à mensagem. Ora bem, este paradigma comunicacional, e outros relacionados com uma visão linear da comunicação, facilmente foram superados quando em confronto com estudos empíricos na área da propaganda e do comportamento eleitoral. Estamos a referirmo-nos concretamente, às investigações de Lazersfeld, Berelson e Gaudet, The People's Choice e às de Lazersfeld, Berelson e McPhee Voting. A Study of Opinion Formation, During a Presidential Campaign, que se reportam, respectivamente, às eleições presidenciais norte-americanas de 1940 e de 1948. O que estes estudos provaram, foi uma total relativização dos modelos lineares de comunicação de massa.

Regressando à problemática do outdoor político, somos levados a questionarmo-nos até que ponto existe uma grande falibilidade potencial nestes suportes de comunicação de massas? O que se torna interessante aqui reflectir são as implicações que esta falibilidade implica. É como se a legitimidade política resistisse a fenómenos lineares de espectacularização na legitimação. Por outras palavras, o próprio exercício da política e da comunicação impõem outros regimes de práticas e de discursos, outras formas de produção de sentido político que não aquelas que apenas mobilizam o aparelho da visão. Talvez a sessão de esclarecimento, a manifestação, o meeting, o debate, isto é, outras formas de legitimação político-eleitoral mais agregantes e interactivas socialmente, sejam modalidades de comunicação política que afinal, não estão tão extintas como, à primeira vista, poderíamos supor.
 
 

2 - Sobre o cartaz de propaganda

Passo agora a reflectir sobre o cartaz e a propaganda. Se o outdoor implica a fundação de um olhar que lê a política, o cartaz de propaganda mobiliza um olhar que vê a política. Na minha opinião, a distinção entre estas duas formas de ver, são significativas da dissociação entre a escrita e a pintura. Na escrita, sobretudo na escrita alfabética, a informação tende a esgotar-se no documento, mesmo que essa informação seja parcelar ou deficiente. Esta situação está relacionada com a dificuldade da escrita em conseguir traduzir outras dimensões de conhecimento captadas por outros regimes de apreensão: o tacto, o sabor, a audição da entoação vocal, etc.. Para além disso, como já atrás referi, um texto escrito raramente permite a intersubjectividade. Como afirmou Platão, um texto escrito não pode ser interrogado. Ora, é precisamente, neste aspecto que é possível distinguir a pintura da escrita, enquanto regime gráfico de representação que não vale por si. Não considero um quadro como um regime escritural de uma história. Uma pintura permite sempre uma interrogação. Como salienta Roland Barthes, uma imagem tem sempre múltiplas camadas de sentido. Para que o sentido seja unívoco, a imagem necessita do auxílio da língua, tal como uma fotografia necessita de uma legenda. Nesta medida, uma pintura não é um texto, é sempre um pré-texto, já que as suas implicações semânticas estão sempre para lá do seu suporte de representação. Aliás, a pintura no seu início, acompanhou ocasiões de recitação, de celebração ritual, etc.. Remetendo o meu raciocínio para a política, posso então, supor que, ao contrário do outdoor, o cartaz de propaganda, enquanto registo pictoral de um sentido político, inaugura um implícito na política. Se quisermos, a sua falta de rigor, a sua obtusidade semântica, ao invés de constituirem uma desvantagem, obrigam a um trabalho de interpretação do espectador político que só se concretiza através de outras situações de comunicação e de experiência envolventes de outros sentidos, que não apenas o do olhar. Situações de comunicação relacionadas, quiçá, com formas mais directas e interpessoais de comunicação. Nesta medida, o cartaz de propaganda é tudo menos transparente. É certo que tal como no outdoor, também ele implica uma espectacularização da política. Porém, as matizes desse espectáculo são totalmente distintas. O espectáculo que o cartaz inaugura não é uma exibição, é uma celebração. O seu regime de significação é mais de tipo poético de que de tipo mimético, se entendermos por poiesis, uma ordem de expressão e significação plural, um expressionismo político que se faz à custa de um trabalho activo, mas pessoal, de descodificação do sentido político. Aquilo que encontramos no cartaz político é a fundação de uma polissemia política: se o outdoor, pretende a todo o custo, criar uma imagem referencial e coesa do homem e do mundo político, o cartaz de propaganda instaura um espaço livre de interpretação política onde podem ser múltiplas as descodificações. Ora, é a partir delas que o cartaz propagandístico instaura a imaginação na política. Para mim, a imaginação é das coisas mais importantes na política porque é indiciática da instauração da utopia na ideologia. Aquilo que o registo pictoral do cartaz propagandístico permite, é a afirmação de outras formas possíveis de exercer o poder e de governar o Estado. Essas possibilidades não são formas alternativas inscritas no mercado da oferta política, mas possiblidades reais de reflectir a própria política e o sistema vigente. Nesta medida, o cartaz de propaganda introduz um sobrenatural da política: à afirmação conjuntural real e programática de um programa eleitoral, o cartaz introduz um algures, como destino político de um rumo ainda por traçar. É certo que esse algures político se pode afirmar como uma negação: "fascismo nunca mais", "não às eleições, sim à revolução Socialista"; ou como uma pulsão, um sonho, um desejo ardente, diria mesmo até, uma alucinação política, que Paul Ricoeur faz associar a uma magia do pensamento. Existe uma outra forma de afirmar esse algures político. É através da reivindicação clara desse destino, autêntico ponto cardeal político: é a luta até ao socialismo, a reivindicação do conservadorismo, etc. De salientar todavia, que nas utopias aquilo que menos interessa é o caminho, mas apenas a chegada, enquanto ponto de fuga política de uma situação histórica concreta. Nesta medida, a utopia que o cartaz propagandístico sugere, está sempre para lá da própria realidade política. É um sonho político que, frequentemente, reivindica o trabalho do artista para existir graficamente. Considero fulcral a manifestação artística no cartaz de propaganda, na medida em que é através do trabalho dele que a utopia adquire uma certa forma de existência. É como se o artista através do cartaz que produziu, tivesse pessoalmente a relacionar-se com a utopia, mais que não seja interpretando-a graficamente e, através dessa relação, nos conseguisse mobilizar para ela. Existem alguns exemplos daquilo que me estou a referir, nomeadamente relativos a cartazes do pós 25 de Abril, quando o Movimento das Forças Armadas recorreu aos artistas para exprimir os seus ideais.
 
 


 

Fig.7- Alguns artistas da revolução: João Abel Manta e Vespeiro, respectivamente.




De todos esses cartazes aquele que poderá ser típico da ilustração da utopia política e representativo do meu raciocínio é o da Vieira da Silva- "A poesia está na rua: 25 de Abril de 1974".




Neste cartaz destaco a disposição, a todos os títulos notável, como é conjugada a tridimensionalidade com um abstraccionismo assumido. Isto é importante, porque significa a distanciação do cartaz de um regime gráfico e a sua aproximação a uma expressão caracteristicamente pictórica

A afirmação da utopia que o cartaz político deixa antever, leva a questionar-me também, até que ponto os fenómenos da legitimação política que lhe estão associados, não são dotados de uma natureza carismática? A existir alguma legitimidade traduzida sob a forma de um resultado eleitoral, ela não se edificou nem a partir de argumentos relacionados com a tradição, nem de argumentos racionalistas associados à lei, ou à técnica. Torna-se, portanto, interessante relacionar a propaganda com o carisma e com os fenómenos da religião. Na realidade, esta associação até faz sentido, porque historicamente a própria génese da propaganda esteve, desde o início, relacionada com o cristianismo. A propaganda remonta ao sec. XI quando o Papa Urbano II persuadiu milhares de cristãos a integrarem-se nas cruzadas em troca do perdão dos seus pecados. Seis séculos depois, a propaganda continua a estar associada à fé e relacionada com a fundação do colégio de propaganda pelo Papa Gregório XV, concebido para supervisionar missões estrangeiras e treinar os clérigos na propagação da religião cristã. Daqui é possível concluir que uma das principais características da propaganda é o carisma, é a fé. Ora, o carisma é uma forma de legitimação que no limite, remete para um plano extra humano, para uma espacialidade e para uma temporalidade a-históricas, que o líder que possui o carisma, permite contactar. É com base neste espiritualismo político que nego, veementemente, o carácter violento e manipulatório da propaganda. No carisma é impossível existir violência. Enquanto forma de legitimação, o carisma depende exclusivamente das características sobre-naturais e mágicas, acrescentaria utópicas, do líder. Quando elas deixam de existir, pura e simplesmente a legitimidade do líder extingue-se. Nesta medida, um cartaz de propaganda é sempre a inscrição de uma sacralidade da política que faz inscrever a praxis e a comunicação política num ritual litúrgico, numa celebração que insere uma pluralidade simultânea de sentidos e de emoções políticas. Essas emoções são antevistas pelo cartaz, mas a sua realização implica vivências que ultrapassam o registo pictoral. É curioso reparar que na história do cartaz português do pós 25 de Abril, as mensagens não remetem só para um culto utópico de um ideal político, mas também para o meeting, para a manifestação, isto é, para outras formas directas de actuar e comunicar a política. O próprio acto de colagem do cartaz e de pintura do mural é ele próprio um ritual, uma celebração política: quantas palavras e gritos de provocação algumas paredes ouviram durante as colagens e quantas cenas de pancadaria, também uma forma de exercício político, não terão assistido?

Para lá deste aspecto caricatural gostaria, por fim, de salientar que devido à dimensão religiosa e carismática da sua origem, a propaganda política do cartaz não é só uma forma de transmissão de um sentido político, mas também apresenta uma dimensão puramente comunicacional da política. A comunicação deve ser entendida não apenas na sua raiz etimológica de comunicatione, isto é, de aviso, de informação, mas também no seu correlato latino comunicare que não só significa receber a comunhão, mas figuradamente também ter as mesmas crenças religiosas, ideias políticas ou princípios. Apesar do risco de estar a forçar conceitos não resisto a introduzir também para esta problemática, a palavra communione, que deu origem a "comunhão" que, liturgicamente, está relacionada com o sacramento da liturgia, no caso da nossa problemática de uma liturgia política. De tudo isto, interrogo-me até que ponto aquilo que um cartaz de propaganda marca, é a legitimidade de um poder político que se assume não por uma evidência utilitária, mas pelo mistério de um credo político onde só assim, simbolicamente, é instaurado um corpo e um sujeito político.
 
 

Conclusão





Nesta palestra procurei reflectir sobre as transformações no âmbito da comunicação política, que o outdoor político indicia.

Numa perspectiva comunicacional, o outdoor está relacionado com a espectacularização da política. Porém, subjacente a essa espectacularização parece-me existir uma relativa passividade política por parte do cidadão. O objectivo do outdoor político é o de instaurar uma transparência na política na qual tudo pode ser visto e lido, sendo passível de um significado político. Na obsessão pelo impacto, na concretização de fenómenos lineares de comunicação, na clareza da apresentação da oferta política, na transparência com que os problemas políticos são identificados e no alarde com que são solucionados, o outdoor político indicia, parodoxalmente, uma ausência de imaginação na política que apele o cidadão a engajar-se na actividade política. Ele passa a estar cada vez mais, reduzido uma mera dimensão de espectador político, ou, se quisermos, de receptor da mensagem política. Como tudo está claramente expresso, a comunicação política deixa de ter uma componente apelativa, no sentido de remeter para uma praxis política, que, parece-me a mim, está cada vez mais reduzida ao acto eleitoral. O outdoor passa a inscrever-se numa dinâmica política utilitarista, que traduz mais a oferta política disponível, do que um imaginário que se assume como um destino político a alcançar. É precisamente em torno desse destino político enquanto imaginário utópico, que fiz contrastar o outdoor com o cartaz de propaganda. Para mim este último, juntamente com outros fenómenos mais ou menos espontâneos de comunicação política, como é o caso do mural ou do graffiti político, é uma modalidade comunicacional totalmente distinta do outdoor político. Ao contrário deste, o cartaz de propaganda faz inaugurar um implícito político, que só é explicitado através de outras acções de comunicação e de participação política, que não as que apenas passam por uma mera leitura política, ou uma actividade eleitoral sazonal.

Esta questão do implícito político levou-me a procurar descobrir qual o regime de percepção que o oudoor e o cartaz político apresentam, chegando à conclusão que eles diferem pelas mesmas diferenças que existem entre a escrita e a pintura.

Paralelamente, procurei descobrir quais os paradigmas comunicacionais subjacentes tanto ao outdoor, como ao cartaz de propaganda. Devido às suas características intrínsecas, concluí que o outdoor político tende a inscrever-se nos mesmos modelos de comunicação subjacentes ao marketing e à publicidade comercial. Tratam-se de modelos essencialmente relacionados com a comunicação de massa, nos quais a acção comunicacional é de tipo linear sendo concebida, numa perspectiva de custo e de benefícios, como um recurso técnico. Por sua vez, através de uma reflexão sobre a génese da propaganda política, inscrevi o cartaz de propaganda no âmbito de modelos comunicacionais de tipo interactivo, essencialmente relacionados com fenómenos de legitimação carismática. Esta distinção levou-me a concluir que, enquanto que o outddoor político está relacionado com uma espectacularização associada a uma relativa passividade política, no cartaz de propaganda, ela inaugura uma sacralidade ritual da prática política.
 
 
 
 

Bibliografia consultada

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-WOLF, Mauro - Teorias da Comunicação. Lisboa, Editorial presença, 1987 (Col. Textos de Apoio, 21), 249p.;

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Catarina Moura