ISSN: 1646-3137  
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Gil Ferreira, Linguagem e Modernidade. A comunicação da experiê

LINGUAGEM E MODERNIDADE

Comunicabilidade da experiência e convenções de representação nas sociedades mediatizadas

(Tese de Mestrado em Ciências da Comunicação)

Janeiro de 2000

Gil António Baptista Ferreira, Universidade da Beira Interior



ÍNDICE e INTRODUÇÃO

Introdução

Capítulo Primeiro – DA LINGUAGEM COMO MODO DE COMUNICAÇÃO

Pensamento, linguagem e significação; – Das potencialidades da comunicação; - A inscrição da experiência na linguagem - A interpretação como tarefa de “depuração”; - A interpretação como caminho da “redenção”; - O carácter linguístico da experiência; - Historicidade e compreensão; - Tradição e superação; - Linguagem, universalidade e verdade.



Capítulo Segundo – ANÁLISE CRÍTICA DA LINGUAGEM E QUESTIONAMENTO DAS SUAS POSSIBILIDADES COMUNICATIVAS



O ideal da linguagem lógica; – A linguagem como refiguração do mundo; - Signo, sentido e mundo; - Jogos de linguagem e interacção; - Variabilidade, linguagens e vivências; – A grande ausência; - Olhando de lado a própria sensação; - Da imposição de regras como regulação da praxis; - Linguagem e limites do mundo: posições; – Conclusão.



Capítulo Terceiro – MODERNIDADE E INSTRUMENTALIZAÇÃO DA LINGUAGEM

A crítica em debate: as querelas alemãs; - O conhecimento da mais pequena coisa; - Tempos da informação; - Episteme e experiência; - Do debate sociável à mediação solitária; - A cesura epistémica; - Linguagem e negatividade; - Ilusões comunicativas; - A inutilidade social do discurso estético; - O diagnóstico percursor de Kraus; - A degradação e os limites do valor semântico; - Legibilidade do legível; - “Um fio apanhou um fio”; - A magia da inquietação.



Capítulo Quarto – LINGUAGEM E INFORMAÇÃO DE MASSA

Mediatizada construção da realidade; – Dos conteúdos; - Conhecimento pelo reconhecimento; - O homem informado; - A linha da resistência; - Possibilidades de entendimento: a esclarecedora complexidade da linguagem.



Conclusão



Bibliografia



Introdução



O mundo contemporâneo tem sido marcado por uma imensa e variada mutação das formas de comunicação, havendo-se gerado aquilo que algumas análises designam ser uma autêntica mediasfera. É neste abrangente espaço que se fundem político com técnico-político, conhecido com mediatizado, e é aqui que desponta a multiplicidade de experiências e perspectivas do real a que os indivíduos acedem. Nas sociedades modernas actuais, a comunicação mediática penetra de forma explícita por todos os domínios da actividade humana, dando conta das relações dos indivíduos com a sociedade global e com as diversas instituições que a compõem, das instituições entre si e dos indivíduos uns com os outros e com a natureza.

Frente a este estado de coisas, qualquer discussão em torno da modernidade não pode deixar de integrar a discussão das modalidades discursivas. É a ordem destas modalidades que pressupõe obviamente o conhecimento de cada esfera da realidade e dos sentidos visados em cada determinação ou troca humana, consequência inevitável da inscrição dos diferentes mundos da experiência moderna no mundo da linguagem e no mundo da comunicação. Ora, as disciplinas da modernidade por excelência, que reflectem as suas contradições e as suas crises de legitimidade, têm sido efectivamente as ciências humanas, que se desenvolveram dando conta e tentando resolver a tensão entre razão e técnica e reflectindo especularmente o espaço da razão, que se desenvolveu nas margens da racionalidade moderna. E, sem dúvida, a emergência da questão comunicacional tem efeitos epistemológicos inegáveis, em particular no domínio das ciências humanas.1

Paralelamente a qualquer formulação mais elaborada sobre a situação e o estatuto da linguagem na nossa era, consideramos que ela só poderá ser questionada se considerado o seu vínculo à lei da universalização e massificação dos processos de comunicação: sobretudo a partir da introdução das novas técnicas industriais de reprodução, esta lei levaria a uma total funcionalização dos processos de produção e de troca de sentido que, em última análise, corresponderia à aproximação dos processos discursivos a uma simples mecânica. Com efeito, um dos traços mais marcantes deste movimento reside na coalizão de natureza e de processos, uma coalizão intensa e radical em que acção, discurso e saber são reduzidos à instrumentalidade e à performatividade, ao mesmo tempo que é cortada a essencial ligação do indivíduo ao questionamento originário, este progressivamente afastado dos padrões discursivos “aceitáveis” na sociedade.

Neste momento, a consciência inalienável de que existe uma relação estreita entre a experiência vivida e a linguagem com que comunicamos dirigirá, desde logo, a nossa atenção para os problemas que a comunicação moderna levanta em termos de relações intersubjectivas, numa época de forte configuração mediática, com modalidades e práticas comunicacionais distintas das modalidades tradicionais do passado. Ao ser concedida a prioridade discursiva à dimensão designativa em detrimento da dimensão significativa, a análise da lógica enclausurante das máquinas discursivas que dominam a esfera da comunicação na sociedade contemporânea acabará por expor, inevitavelmente, a comunicabilidade contemporânea à acusação de “recalcamento” estereotipado do mundo. Trata-se do uso da linguagem que corresponde à comunicação “unilateral”, alargada hoje às mais diversas formas de conversação: a comunicação clara, sem questões ou atritos, em nome de uma ética da clareza aplicada à produção que rejeita o que não é óbvio. Esquecendo-se, no entanto, uma ética da recepção que impõe o dever de tentar conhecer o novo - forçosamente menos claro porque novo -, em vez de procurar reconhecer o conhecido. A experiência do mundo na contemporaneidade – experiência da natureza ou do mundo intersubjectivo das relações individuais e sociais – subordinar-se-á por fim à performatividade, obliterando as dimensões comunicacionais que alimentavam no passado os laços sociais: uma dimensão que criava uma memória, um espaço de afinidades constituído em torno de inclinações inconscientes, extremamente aleatórias, e também por isso de difícil produção e manipulação mediática ou de massa.

Situada no campo das ciências humanas, também a estratégia delineada neste trabalho se inscreve numa análise crítica do funcionamento da linguagem na contemporaneidade, abarcando tanto os planos psíquicos e hermenêuticos que sustêm a permanente procura do estatuto do homem em relação aos imperativos transcendentes, como a estrutura e os modos de funcionamento das instituições sociais. Naturalmente, tenderemos para a crítica de um dado tipo de funcionamento da linguagem que, como referimos, é aceite como uma espécie de bandeira de um tempo que é o nosso. Passa também pela análise de uma nova cultura - a que corresponde um pensamento próprio, com características peculiares porque inéditas -, que emergiu plena de imagens e de sons, de cores e de formatos, e que, de forma incontornável, contribui para a construção da realidade. No núcleo de uma tal análise estão a linguagem e a comunicação.

A intuição que serviu de ponto de partida, e que este trabalho acabaria por consolidar, foi a de que a compreensão da linguagem na actualidade, ligada como se encontra aos media, não deixará ainda assim de implicar uma intensa experiência quotidiana: há uma conexão espírito-linguagem-mundo que não se reduz a raciocínios, que implica uma linguagem que ultrapasse o conceito, embora se estruture discursivamente no conceito. Assim se desenvolve uma fundamental forma de interacção, de entrega aos sinais que submergem o indivíduo e que constituem as suas vivências; e é essa interacção que continua a ser o espaço onde o indivíduo emerge como espírito (Herbert Mead). Daí se define o pensamento, aí se compõem objectos e significações através da simbolização – uma posição celebrada por toda uma tradição que, atravessando o estudo do processo interaccional, se estendeu por campos científicos diversos, unidos embora pela percepção da relevância essencial da linguagem como modo de aceder ao mundo, entendido este no sentido lato do termo. Deste modo, por experiência da linguagem devemos antes de mais entender uma experiência simbólica por natureza, mediada tanto por gestos (de que os vocais são tão só uma parte) como por representações várias, tanto por monumentos como por objectos, pelo corpo ou pelas cores: é aí, no horizonte composto pela experiência do indivíduo, «que o ego deve perder-se e encontrar-se»,2 formando a unidade do indivíduo com si mesmo e a impondo a abertura de fugidios e localizados feixes de entendimento com os outros.

Ora, é neste momento que o eixo do problema em questão se começa a delinear: essa conversação subjectivada ou implícita do indivíduo consigo mesmo, e essa outra experiência (também ela “subterrânea”, apesar de tudo) de troca de gestos significantes, não serão, por natureza, algo de indeterminado, algo de único, com algo de indizível? Donde, quais as possibilidades de se desenvolver sobre tal ameaça de “incomunicabilidade” um novo “continente” de sentido, no qual seja possível, ainda assim, incorporar as mais sólidas possibilidades de entendimento? E por fim (ou como modesta súmula): a que acede então o interpretante, envolto na fluída discursividade moderna, recoberto por um “manto de palavras” mais ou menos rigidamente organizadas em discursos, onde se torna difícil pensar ou agir sem recorrer à palavra já domesticada? (Uma abordagem complexa, de dimensão político-social, e que no limite pode resultar na recorrente versão de pessoas alienadas pela recusa à experiência de “pensar”.) Questões que se multiplicarão, encontrado o eixo adequado que lhes dê expressão, sabendo-se à partida que todas terão uma dimensão social (que passa pela realização da razão do indivíduo enquanto sujeito numa comunidade), filosófica (ligada ao verdadeiro acesso à experiência do mundo) e cultural (que envolve as questões de sentido de tudo o que se faz).

Boa parte deste esforço crítico, desenvolvido por percursores de certo modo marginais ao campo científico como Karl Kraus, Franz Kafka ou mesmo Paul Celan, é prosseguido pela hermenêutica contemporânea (Hans-Georg Gadamer e Paul Ricoeur). No fundo, importa reflectir, acima de tudo, quais as relações percebidas entre a linguagem (seja ela qual for) e o indivíduo (seja o indivíduo quem for), verdadeira aporia intemporal e que na modernidade se encontra formulada pelo menos desde os polémicos aforismos krausianos: expressa por exemplo, pelo delinear do “confronto” entre os que consideram a linguagem como servidora ou como soberana. Aqui reside, sob a forma de metáfora, a cesura entre os dois contendores de uma apropriada perspectiva de linguagem, e, num plano contíguo, o núcleo do amplo debate sobre o estatuto do indivíduo na Modernidade.

Retomando: singularidade da experiência contida na linguagem e compreensão como imprevisível tarefa, por um lado, que aqui sustentaremos a partir da perspectiva crítica da chamada Escola de Frankfurt (Benjamin, Adorno, Marcuse); cientificismo, racionalismo e clausura do sentido, pretensões positivistas, analíticas e lógicas (de Russell, Wittgenstein da primeira fase e Popper, entre outros) que conduziriam ao carácter instrumental da linguagem, pelo outro lado. É na esteira desta ambivalência que procuraremos delinear um quadro geral para a compreensão da discursividade moderna, associada como está às mutações sociais e à influência determinante dos media. Neste posicionamento está já posta em causa a condição actual da discursividade pública, nomeadamente a que se pretende guiar pela evidência, simplicidade e imediatez. Como procuraremos observar, discurso e real tendem a confundir-se, e, da multiplicidade de discursos, distinguem-se os simples e evidentes: será deste jogo, em que interpretação e experiência se cruzam, que importará dar especial conta neste trabalho. E é deste modo específico que pretendemos partilhar a já muito discutida comunicabilidade da linguagem: a linguagem pode fazer sentido, está longe de se reduzir ao recorrente “words, words, words” de um desconcertado e debilitado Hamlet. Mas, para que assim seja, e porque Democracia verdadeira passará, fundamentalmente, pela subordinação de obras, técnicas e sentidos à capacidade criadora e transformadora dos indivíduos, a solução não será marcada por qualquer recusa ou demissão, mas antes pela experiência extrema do indivíduo enquanto Sujeito.


1Cfr. Rodrigues, Adriano Duarte, Estratégias de Comunicação, Lisboa, Presença, 1990, págs. 9, 114-115.

2Ricoeur, Paul, O Conflito das Interpretações, Porto, Rés Editora, s/d, pág. 321.

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Catarina Moura