ISSN: 1646-3137  
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IMAGENS ACTUAIS DO BRASIL NA IMPRENSA PORTUGUESA DE GRANDE EXPANSÃO

IMAGENS ACTUAIS DO BRASIL NA IMPRENSA PORTUGUESA DE GRANDE CIRCULAÇÃO

Images of Brazil in the Portuguese Press

Imágenes del Brasil en la prensa portuguesa

 

Jorge Pedro Sousa[1]

 

 

Sumário

 

Neste trabalho, o autor procura identificar e descrever as imagens actuais do Brasil projectadas pela imprensa portuguesa de grande circulação.   A pesquisa baseou-se numa análise quantitativa do discurso, com categorias definidas a priori.  Para o efeito, foi construída uma amostra representativa de jornais e revistas portugueses de grande circulação, publicados em 1999.  Entre as principais conclusões, o autor salienta que, embora em números absolutos exista pouca informação sobre o Brasil na imprensa portuguesa de grande circulação, em termos relativos essa informação é relevante.  Além disso, o autor considera que, do seu ponto de vista, a informação sobre o Brasil na imprensa portuguesa tendencialmente favorece o Brasil e as relações Portugal - Brasil.  O autor descobriu, ainda, que as principais fontes no fabrico de informação sobre o Brasil são os próprios jornalistas, que a informação é, na sua maioria, tendencialmente descritiva e que os news media apostam na informação de produção própria.

 

Palavras-chave: imagens do Brasil; análise do discurso; imprensa portuguesa.

 

 

Abstract

 

In this work, the researcher try to identify and depict the images of Brazil portrayed by the Portuguese press with a large circulation.  This research is based in a quantitative analysis of the speech, using categories defined a priori.  The researcher built a representative sample of large circulation Portuguese newspapers and magazines published in 1999.  Among the main conclusions, the author found that in absolute numbers there is a little amount of news about Brazil in the Portuguese press.  However, in relative terms, the amount of news about Brazil in the Portuguese press is significant.  In addition, in the opinion of the author, most of the information about Brazil in the Portuguese press favours Brazil and the relations between Brazil and Portugal.  The author also found that journalists themselves initiated the news about Brazil in the Portuguese press, which are predominantly descriptive and produced by the journalists, than relying on other sources.

 

Key-words: images of Brazil; speech analysis; Portuguese Press.

 

 

Resumen

 

En este trabajo, el autor intenta identificar y describir las imágenes del Brasil proyectadas por la prensa portuguesa de grande circulación.  La investigación se basa en un análisis cuantitativo del discurso usando categorías definidas a priori.  Para eso, el autor hay construido una muestra de periódicos y revistas portugueses de grande circulación publicados en 1999.  En lo que respecta a las conclusiones, el autor destaca que en números absolutos hay poca información sobre el Brasil en la prensa portuguesa de grande circulación, pero que en números relativos la cantidad de información sobre el Brasil es importante.  Además, el autor considera, desde su ponto de vista, que la información sobre el Brasil en la prensa portuguesa es mayoritariamente positiva para el Brasil y para las relaciones entre Portugal y el Brasil.  El autor hay descubierto aún que las principales fuentes en la fabricación de la información sobre el Brasil son los periodistas, que la información es mayoritariamente descriptiva y que los news media apuestan en la información que ellos mismos producen.

 

Palabras-llave: imágenes del Brasil; análisis del discurso; prensa portuguesa.

 

 

1.       Introdução

 

Este trabalho procura contribuir para o conhecimento das imagens do Brasil que são construídas e difundidas pela imprensa portuguesa de grande expansão no final do segundo milénio.  A pesquisa teve, assim, por objectivo, delinear essas imagens enquanto indicadores e índices das relações entre Portugal e o Brasil na transição para um novo século[2].

A principal hipótese a testar no estudo foi a seguinte: se existe uma convergência de interesses entre Portugal e o Brasil, alicerçada na língua, na partilha de parte da história e, agora, na globalização económica[3] e na resistência ao domínio anglófono[4], e se existe um aumento recíproco do interesse que os seus habitantes nutrem uns pelos outros[5], tal como, aparentemente, transparece do discurso político dominante[6] e das comemorações dos 500 anos do descobrimento ou “achamento” do Brasil, no ano 2000[7], então os meios jornalísticos não poderão deixar de fazer eco dessa situação, representando-a.  Portanto, e tendo em conta, entre outras, as conclusões de pesquisadores como Galtung e Ruge (1965) ou Wolf  (1987), se existe um processo de (re)aproximação entre Portugal e o Brasil, as notícias que representam esse processo na imprensa resultam, em princípio, de um processo de fabrico (newsmaking) no seio do qual interagem, entre outros factores, critérios de noticiabilidade capazes de adicionar aos acontecimentos um valor susceptível de os tornar notícia (valores-notícia), como:

- Proximidade;

- Interesses nacionais, particularmente se existirem confrontos (desvio à norma) ou problemáticas;

- Intensidade e significância dos acontecimentos dentro do contexto em que a imprensa portuguesa está imersa;

- Número de pessoas envolvidas nos acontecimentos;

- Consequências e evolução possível dos acontecimentos, particularmente daqueles que já foram objecto de notícia;

- Estatuto das personalidades envolvidas nos acontecimentos.

De acordo com o enunciado anterior, e citando Marques de Melo et al. (1999: 5), "(...) a investigação sobre a contribuição do jornalismo a um processo de integração [neste caso, de reaproximação] entre países deve estar direccionada a detectar os personagens e acontecimentos considerados suficientemente interessantes, significativos e relevantes para serem transformados em notícias."  Para o efeito, o estudo baseou-se, principalmente, na análise quantitativa do discurso sobre o Brasil protagonizado, em 1999, por periódicos portugueses de informação geral e de grande circulação no país.  Para efectuar a análise quantitativa do discurso, a informação foi, normalmente, contabilizada em número de peças e em cm2, conforme é habitual neste tipo de pesquisa (cf. Marques de Melo et. al., 1999: 4; cf. Marques de Melo, 1972), sendo classificada por categorias definidas a priori.  Para efeitos de aferição do número de peças, apenas se consideraram as peças jornalísticas (descritivas, analíticas ou opinativas[8]); do mesmo modo, apenas se considerou o espaço ocupado pelas peças de cariz jornalístico, desprezando-se o espaço ocupado por publicidade -ainda que predominantemente de cariz informativo- e propaganda.  Há ainda a destacar que, para a definição das categorias para a análise de conteúdo, tomou-se em consideração que essa mesma análise procuraria responder a várias perguntas de investigação[9].

A prioridade metodológica que concedi à análise quantitativa justifica-se pelo rigor que ela introduz na pesquisa.  Além disso:

 

"Ao invés de entrevistar o leitor sobre os seus hábitos de leitura, utiliza-se o processo inverso, ou seja, analisar aquilo que é oferecido ao leitor, assumindo que aquilo que o leitor lê no jornal da sua escolha reflecte suas atitudes e valores em relação ao facto noticiado[10].  (...)

Outra vantagem deste tipo de pesquisa é o facto de trabalhar com valores essencialmente quantificáveis, definidos por categorias estabelecidas e comprovadas em estudos similares.  Desta forma, a colecta de dados é baseada na mensuração de textos e as conclusões expressas em forma numérica, o que facilita o cruzamento de informações e a elaboração de tabelas e gráficos explicativos, além de permitir com facilidade a reavaliação e comprovação de todo o projecto ou parte dele." (Marques de Melo et al., 1999: 4)

 

Parece-me notório que a definição de grande parte das categorias para análise quantitativa do discurso é clara (e habitual[11]), associando-se às variáveis a analisar para responder às perguntas de investigação[12], conforme é visível nas tabelas onde constam os dados colectados durante a pesquisa.  Desta forma, em meu entender não é necessário traduzir em que consistem exaustivamente todas as categorias per si, nomeadamente quando as categorias se referem:

· à ubiquação da peça (o espaço onde a peça surge -primeira página, última página ou páginas interiores- define a categoria);

· à secção do jornal onde a peça surge (neste caso, a secção -que geralmente corresponde a uma editoria da redacção- define a categoria);

· aos temas específicos da informação (o tema da informação define a categoria);

· às fontes (o tipo de fonte define a categoria);

· à produção da peça (quem produz a peça define a categoria);

· e às localidades mencionadas nas peças (as localidades mencionadas definem a categoria).

A explicitação das categorias que possam oferecer dúvidas surge no quadro a seguir inserido.

 

Definição de categorias para análise do discurso

 

Categorias

Explicitação

 

Peças sobre o Brasil

Peças jornalísticas que abordem exclusivamente acontecimentos ocorridos no Brasil, personalidades brasileiras, problemáticas que tenham surgido no Brasil, ideias geradas por brasileiros, etc.

Peças sobre Brasil - Portugal

Peças jornalísticas que abordem acontecimentos que envolvam simultaneamente Brasil e Portugal, pessoas individuais e colectivas dos dois países, acções de pessoas individuais e colectivas de um dos países no outro país, etc.

 

Peças sobre Brasil - Outros Países

Peças jornalísticas que, sem se referirem a Portugal, abordem acontecimentos que envolvam simultaneamente Brasil e outros países, pessoas individuais e colectivas do Brasil e outros países, acções de pessoas individuais e colectivas do Brasil noutro país e vice-versa, etc. (excluindo Portugal).

 

 

Outra situação envolvendo o Brasil

Peças jornalísticas que refiram superficialmente o Brasil, acontecimentos aí ocorridos ou pessoas individuais e colectivas brasileiras, embora o seu conteúdo respeite, essencialmente, a outras situações.  Como só houve três notícias inseríveis nesta categoria, em dois periódicos,  no momento de classificar detalhadamente os dados não foram criadas tabelas específicas para estas peças.  Optou-se por inclui-las na informação sobre Brasil - Portugal ou Brasil - Outros Países, consoante mencionassem ou não Portugal.

 

Sentido da informação mista: Portugal no Brasil

Peças jornalísticas que respeitem a acontecimentos ou problemáticas que, por exemplo, envolvam pessoas individuais ou colectivas portuguesas no Brasil, como uma visita de um ministro português ao Brasil, a realização de uma feira de produtos portugueses no Brasil, investimentos portugueses no Brasil, a vida de portugueses no Brasil, espectáculos de artistas portugueses no Brasil, etc.

 

Sentido da informação mista: Portugal - Brasil

Peças jornalísticas que respeitem a acontecimentos ou problemáticas que se refiram simultânea e equilibradamente a Portugal e ao Brasil, a pessoas individuais e colectivas dos dois países, etc., como o estabelecimento de acordos entre os dois países, o estabelecimento de parcerias comerciais e empresariais, as comemorações conjuntas dos 500 anos do "achamento" do Brasil, etc.

 

Sentido da informação mista: Brasil em Portugal

Peças jornalísticas que respeitem a acontecimentos ou problemáticas que, por exemplo, envolvam pessoas individuais ou colectivas brasileiras em Portugal, como uma visita de um ministro brasileiro a Portugal, a realização de uma feira de produtos brasileiros em Portugal, investimentos brasileiros em Portugal, a vida de brasileiros em Portugal, espectáculos de artistas brasileiros em Portugal, etc.

 

Ponto de vista/ângulo dominante/tendencial das peças com menção ao Brasil na amostra: peças neutras

Peças jornalísticas cujo tom, ângulo ou ponto de vista dominante é tendencialmente neutro em relação ao Brasil ou quando existe um certo equilíbrio entre as partes da peça cujo tom ou ponto de vista é potencialmente negativo para o Brasil e as partes da peça cujo tom ou ponto de vista é potencialmente positivo para o Brasil.  A título de comentário, a distribuição das peças por categorias referentes ao tom/ângulo/ponto de vista dominante/tendencial pode ser vista como um tanto ou quanto subjectiva e, em certas peças, pode efectivamente sê-lo.  Mas se uma peça, por exemplo, fala de uma reunião inócua do governo brasileiro, ela pode considerar-se, em meu entender, como sendo tendencialmente neutra.

Ponto de vista/ângulo

dominante/tendencial das peças com menção ao Brasil na amostra: peças positivas para o Brasil

 

Peças jornalísticas cujo tom, ângulo ou ponto de vista dominante é tendencialmente positivo em relação ao Brasil, como, por exemplo, uma notícia respeitante à adopção de medidas de defesa da selva Amazónica, uma reportagem sobre os paraísos naturais brasileiros, etc.

Ponto de vista/ângulo dominante/tendencial das peças com menção ao Brasil na amostra: peças negativas para o Brasil

 

Peças jornalísticas cujo tom, ângulo ou ponto de vista dominante é tendencialmente negativo em relação ao Brasil, como, por exemplo, notícias respeitantes à invasão de áreas florestais virgens por madeireiros, criadores de gado e agricultores, ao comércio de espécies animais protegidas, às queimadas ilegais feitas por criadores de gado e agricultores latifundiários sem escrúpulos, às más condições de vida nas prisões, à prostituição, etc.

Ponto de vista/ângulo dominante/tendencial das peças com menção ao Brasil na amostra: peças positivas para as relações Portugal - Brasil

 

 

Peças jornalísticas cujo tom, ângulo ou ponto de vista dominante tenda a estreitar positivamente as relações entre Portugal e o Brasil, como uma notícia sobre o estabelecimento de um acordo comercial, etc.

Ponto de vista/ângulo dominante/tendencial das peças com menção ao Brasil na amostra: peças negativas para as relações Portugal - Brasil

 

 

Peças jornalísticas cujo tom, ângulo ou ponto de vista dominante tenda a prejudicar as relações entre Portugal e o Brasil, como um editorial criticando as afirmações de um governante ou outro responsável de um dos países sobre o outro país.

Géneros jornalísticos: nota/notícia breve

Relato sucinto e descritivo de um acontecimento, geralmente não tendo mais de dois ou três parágrafos curtos, com ou sem citações directas e/ou parafraseadas de outras fontes que não o jornalista, e que traz informação nova.

 

 

Géneros jornalísticos: notícia desenvolvida ou reportagem

Relato desenvolvido e aprofundado de um acontecimento, em geral predominantemente descritivo, embora possa ter facetas analíticas e até opinativas, e que possui, geralmente, citações directas e/ou parafraseadas de outras fontes que não o jornalista.  Admitiram-se nesta categoria diversos géneros de reportagem: reportagem retrospectiva de acontecimento, reportagem de acção, reportagem de personalidade ou perfil, etc.  As notícias desenvolvidas e reportagens normalmente trazem informação nova, mas, por vezes, recuperam informação antiga para contextualizarem os assuntos e permitem-se apontar pistas quanto às suas consequências.

 

 

 

Géneros jornalísticos: entrevista

Peça jornalística susceptível de permitir a um ou mais entrevistados dirigirem-se directamente ao leitor através das respostas que dão às perguntas de um jornalista, embora o jornalista oriente a entrevista em função das perguntas que coloca, de forma a trazer a público informação nova e pertinente.  Admitiram-se nesta categoria diversos géneros de entrevista: por um lado, entrevistas em "pergunta-resposta" ou em "discurso indirecto"; por outro lado, entrevistas de declarações, entrevistas de personalidade, entrevistas-inquérito, etc.   Geralmente, na entrevista é o entrevistado e não o jornalista que está em foco, pelo que a maior parte do texto tem origem no primeiro.

Géneros jornalísticos: peça de opinião ou análise

Peças jornalísticas interpretativas cuja maioria das orações é de teor analítico ou opinativo, sendo, portanto, normalmente artigos de opinião ou análise, editoriais, etc.  Geralmente são peças que não trazem informação nova, antes se debruçam sobre dados conhecidos mas que ainda não tenham sido interpretados e até correlacionados.

 

Géneros jornalísticos: peça documental

Peças jornalísticas que funcionam como background informativo e documental para notícias, reportagens, entrevistas, etc.  Por exemplo, uma cronologia dos factos históricos que antecederam determinado acontecimento pode considerar-se uma peça documental, tal como, por exemplo, uma peça que descreva as armas de exércitos ou forças policiais.

Géneros jornalísticos: outro tipo ou tipologia mista

Peças jornalísticas que misturam diferentes tipologias.  Por exemplo, uma reportagem pode integrar uma cronologia histórica dos factos que antecederam o acontecimento, etc.

Peça essencialmente descritiva ou documental

Peça jornalística onde a maior parte das orações é descritiva, isto é, serve para descrever alguma coisa, como um facto, um acontecimento ou uma ideia.

 

 

 

 

Peça essencialmente analítica

Peça jornalística interpretativa onde a maior parte das orações é analítica, isto é, onde a maior parte das orações serve para interpretar dados factuais que são disponibilizados sob uma forma descritiva e rigorosa.  A análise pode considerar-se, segundo Pinto (1997), como estando a meio caminho entre a descrição e a opinião, pois a análise baseia-se sempre em factos, que são rigorosamente interpretados e a partir dos quais se extraem conclusões.  A análise não tem necessariamente uma intenção persuasiva e privilegiadamente argumentativa, tal e qual como acontece num artigo científico.  Numa análise, interpretam-se e relacionam-se dados de forma rigorosa e precisa, estruturam-se e organizam-se informações, orientando assim o leitor, como acontece quando se interpretam os resultados de um inquérito ou de uma sondagem no jornalismo de precisão.

 

Peça essencialmente opinativa

Peça jornalística interpretativa e argumentativa, elaborada com intuitos essencialmente persuasivos, onde a maior parte das orações é de cariz opinativo.  A opinião distingue-se da análise, na óptica de Pinto (1997), porque as opiniões não necessitam de se fundamentar em factos precisos e rigorosos.  A opinião pode, inclusivamente, ser de cariz especulativo e livre.

Fonte de informação explícita

A fonte é expressamente identificada.

 

Fonte de informação implícita

A fonte não é expressamente identificada, mas consegue-se identificá-la sem que paire qualquer dúvida no espírito do leitor (por exemplo, por já ter sido referenciada na peça).  Não deve, portanto, ser confundida com uma fonte anónima, pois o discurso é produzido por uma fonte identificável, embora esta não seja denominada.

Número de aparições de uma fonte numa peça

Número de vezes que uma fonte informativa é referida, explícita ou implicitamente, numa peça, sem que haja lugar a interrupções significativas no seu discurso por outra fonte, mesmo que se trate do jornalista.

 

Torna-se imprescindível salientar que não foram classificados dados em várias das categorias de análise quantitativa do discurso definidas a priori.  Para facilidade da apreensão dos dados, essas categorias não surgem nas tabelas de resultados (a partir da tabela 6, inclusive).  Nestas tabelas apenas surgem as categorias de análise nas quais foram classificadas informações.  Por este motivo, as tabelas não traduzem a minúcia com que foram definidas as categorias de análise e, portanto, também não traduzem a extensão da pesquisa.  Por exemplo, foram definidas a priori quase uma centena de categorias para se classificarem as peças em função do seu tema específico, mas as tabelas de resultados foram construídas tendo unicamente em conta as categorias em que foram classificadas peças, pois de outra maneira surgiriam dezenas de células em branco.  Do mesmo modo, e igualmente a título exemplificativo, a responsabilidade pela produção das peças foi distribuída por cerca de trinta categorias, englobando as principais agências noticiosas e outros órgãos jornalísticos do mundo, incluindo do Brasil, de Portugal, dos Estados Unidos e da América Latina.  Mas só foram mencionadas na tabela as categorias nas quais se classificaram dados.  Se não o fizesse, as tabelas teriam, algo despropositadamente, dezenas de células em branco, tornando-se de leitura difícil.

A análise efectuada aos jornais e revistas seleccionados procurou responder, essencialmente, às perguntas de investigação (research questions) constantes no quadro a seguir inserido.

 

Perguntas de investigação e variáveis correspondentes a aferir (texto)

 

Research questions

Variáveis

× Qual é a relevância da informação sobre o Brasil?

× Quantidade de informação (número de artigos, média por edição, espaço ocupado)

× Quais são os temas que predominam na informação sobre o Brasil?

× Tema genérico (secção de inserção) e tema específico da peça

× Qual é o grau de dependência que os órgãos de comunicação social manifestam em relação à Agência Lusa e a outras agências no que respeita às informações sobre Brasil?

× Qual é o grau de protagonismo dos órgãos de comunicação social e dos seus colaboradores na recolha e processamento da informação sobre o Brasil?

 

 

× Serviço informativo a quem a peça é atribuída

× Peças de produção própria (correspondentes, colaboradores, enviados, etc.)

× Qual é a quantidade de peças sobre o Brasil que se geram no país e fora do país?

× Procedência da peça

× Serviço informativo a quem a peça é atribuída

× Qual ou quais são os agentes/protagonistas da informação sobre o Brasil?

× Qual é o grau de pluralismo na informação sobre o Brasil?

 

× Fontes citadas e número de orações atribuídas a cada fonte

× Qual é a relevância jornalística concedida às peças sobre o Brasil?

× Ubiquação das peças (localização da peça no jornal: primeira página, última página, página interior)

× Quais os géneros jornalísticos e as tipologias discursivas que dominam na informação sobre o Brasil?

× Géneros jornalísticos

×  Peças predominantemente descritivas, documentais, analíticas e opinativas/argumentativas

× Existe equilíbrio ou desequilíbrio geográfico nas peças sobre o Brasil?

× Localidades mencionadas nas peças

 

 

Após uma primeira análise da amostra de jornais e revistas que foram objecto de estudo, verifiquei que a informação sobre o Brasil englobava unicamente textos e fotografias.  Assim, neste estudo apenas me debruço sobre essas duas facetas do discurso jornalístico impresso.

No que respeita à análise do discurso especificamente fotojornalístico sobre o Brasil, adaptei, para nortear a pesquisa, as perguntas de investigação referentes à informação textual, conforme revela o quadro a seguir inserido.

 

Perguntas de investigação e variáveis correspondentes a aferir (fotografias)

 

Research questions

Variáveis

× Qual é a relevância da informação fotográfica sobre o Brasil?

× Quantidade de fotografias (número de fotos, espaço ocupado)

× Quais são os temas que predominam na informação fotográfica sobre o Brasil?

× Qual ou quais são os agentes/protagonistas da informação fotográfica  sobre o Brasil?

× Qual é o grau de pluralidade informativa na informação fotográfica sobre o Brasil?

 

 

× Conteúdo principal das fotos

× Actantes presentes nas fotografias (protagonismo)

× Qual é o grau de dependência que os jornais manifestam em relação à Agência Lusa e a outras agências no que respeita à informação fotográfica sobre o Brasil?

× Qual é o grau de protagonismo dos jornais e dos seus colaboradores na recolha e processamento da informação fotográfica  sobre o Brasil?

 

× Serviço informativo a quem a foto é atribuída

× Fotos de produção própria (correspondentes, colaboradores, enviados, etc.)

× Existe equilíbrio ou desequilíbrio geográfico nas fotos sobre o Brasil?

× Localidades fotografadas

 

 

Escolhi estudar os jornais e revistas de grande circulação publicados em 1999 porque a análise da imprensa no ano 2000 seria atípica, uma vez que em 2000 se comemoram os 500 anos da descoberta (ou “achamento”) do Brasil, tendo havido dezenas de artigos, suplementos e revistas dedicados ao Brasil na imprensa portuguesa[13].

Uma vez que, face aos meios disponíveis, seria impossível analisar todos os jornais, seleccionei para estudo jornais tanto quanto possível representativos e de grande circulação (tendo em consideração, para avaliação da circulação dos jornais e revistas, que a mesma se reporta à realidade portuguesa).  Em concreto, escolhi como objecto de estudo jornais diários de referência que busquem, assumidamente, uma expansão nacional e que estão sedeados em Lisboa, o Público e o Diário de Notícias, o Jornal de Notícias, um diário tradicional do Norte, que está sedeado no Porto, embora busque uma implantação nacional, e  que é também o jornal maior tiragem média diária no país, e O Correio da Manhã,  um diário “popular” sedeado em Lisboa.  Estudei ainda o semanário português Expresso, devido à sua grande circulação em todo o território nacional, e a revista Visão, uma vez que, durante grande parte do ano de 1999, era a única revista de informação geral difundida semanal e massivamente em Portugal.  Estudei também todos os números da revista mensal de grande informação Grande Reportagem.  Portanto, gostaria de relembrar que os dados recolhidos dizem unicamente respeito à amostra de jornais e revistas analisados, pelo que as imagens do Brasil na imprensa portuguesa de grande circulação podem ser diferentes daquelas que aqui ficam registadas.  Contudo, estou convencido de que a forma como construí a amostra permitiu-me obter resultados minimamente fidedignos.

Segundo os dados da Associação Portuguesa Para o Controle de Tiragem[14], a circulação média diária dos jornais e revistas analisados, durante os três primeiros trimestres de 1999, foi a seguinte:

- Grande Reportagem: 48.500 exemplares (Janeiro de 1999);

- Visão: 80.397 exemplares;

- Expresso: 143.726 exemplares;

- Jornal de Notícias: 112.919 exemplares;

- Correio da Manhã: 76.845 exemplares;

- Diário de Notícias: 57.307 exemplares;

- Público: 53.715 exemplares.

 O estudo baseou-se numa amostra construída de 26 números (metade das semanas do ano) de cada jornal diário[15] e de doze números (um jornal por mês) do jornal Expresso e da revista Visão[16].  Por sua vez, foram analisados todos os números da Grande Reportagem.

Sempre que tal iniciativa foi aceite, foi feita uma entrevista complementar a responsáveis editoriais dos órgãos de comunicação social estudados, através da qual se procuraram explicações para os resultados obtidos com a análise quantitativa.  Procurei, ainda, relacionar os dados obtidos com a rede[17] que os órgãos de comunicação social portugueses lançam no Brasil para "capturar" os acontecimentos, levando em linha de conta que, em 1999, os jornais e revistas analisados que possuíam correspondentes no Brasil eram os seguintes:

- Público (correspondente no Rio de Janeiro);

- Diário de Notícias (correspondente no Rio de Janeiro);

- Correio da Manhã (correspondente em São Paulo);

- Jornal de Notícias (correspondente em Brasília);

- Expresso (correspondente no Rio de Janeiro).

No levantamento bibliográfico que fiz, não encontrei quaisquer trabalhos sobre este tema.  De facto, apesar do interesse que, no seio da comunidade académica das Ciências da Comunicação, portugueses e brasileiros possam sentir uns pelos outros, como se pode comprovar pela criação da Lusocom[18], o que é certo é que a única obra que se pode aproximar do tema que aqui trato é Sotaques d'Aquém e d'Além Mar, de Manuel Carlos Chaparro (1998).  Mesmo assim, este livro não trata das imagens projectadas pela imprensa de um país acerca do outro; é, sim, uma análise comparativa dos géneros jornalísticos no jornalismo impresso português e no jornalismo impresso brasileiro.  Portanto, julgo que o meu trabalho é original, embora esta originalidade apenas encontre justificação no facto de ser relativamente recente a cooperação e o diálogo sistemático entre os pesquisadores brasileiros e portugueses da área das Ciências da Comunicação.

 

 

2.       Contexto histórico: As relações entre Portugal e o Brasil na última década do Século XX

 

Do meu ponto de vista, os laços entre Portugal e o Brasil fortaleceram-se na última década do século XX.  Houve, é certo, episódios mais ou menos problemáticos.  Recordo, por exemplo, a questão da legalização dos dentistas brasileiros em Portugal (1990/91)[19] e uma certa reacção xenófoba contra os imigrantes brasileiros no nosso país[20].  Posso também realçar que ainda falta resolver a questão da reciprocidade de direitos dos portugueses no Brasil e dos brasileiros em Portugal[21].  Mas parece-me correcto dizer que se estabeleceu, de facto, um novo quadro de relacionamento bilateral, marcado pela emancipação recíproca em relação a um passado colonial e pós-colonial que parecia condicionar a evolução das relações entre os dois povos[22].  Para este fenómeno de emancipação terão contribuído as diferentes opções geo-estratégicas de cada um dos países, designadamente a opção europeia de Portugal (União Europeia) e a opção (latino-)americana do Brasil (Mercosul).  Pesem-se, porém, as palavras avisadas de Boaventura de Sousa Santos:

 

"Portugal e o Brasil são dois países de desenvolvimento intermédio, mas enquanto Portugal é um país periférico num bloco regional central (a União Europeia), o Brasil é um país central num bloco regional periférico (o Mercosul).  Ambos os países estão sob pressão dos imperativos do capitalismo global, mas enquanto o Brasil está na zona de influência do capitalismo liberal dos Estados Unidos, Portugal está na zona de influência do capitalismo social-democrático europeu.  (...)  Apesar destes contrastes, detectam-se algumas semelhanças perturbadoras entre os dois países.  As desigualdades sociais aumentaram muito nos últimos anos e as políticas sociais são pouco redistributivas em ambos os países.  A corrupção tem aumentado e instalou-se nos dois lados do Atlântico um clima de desânimo social (...) [e] resignação." (2000: 54)

 

Reuniram-se, talvez, as condições para que o relacionamento entre Portugal e o Brasil tenha passado, mais realística e concretamente, a assentar em factores como a economia e o empreendorismo (investimentos...), o turismo, as feiras internacionais, os congressos científicos e profissionais e a troca (ainda que desequilibrada, a favor do Brasil) de produtos culturais.  Sobre este último ponto, se, por um lado, a língua e a história comum já aproximavam os dois povos, a exportação brasileira de conteúdos (telenovelas, filmes, canais por cabo, música,  revistas, etc.) terá tornado o Brasil e os brasileiros mais familiares aos portugueses[23].  O inverso, porém, talvez não tenha ocorrido, pois as tentativas portuguesas de exportação de conteúdos (veja-se o caso da RTP Internacional) foram tímidas e não muito bem sucedidas.  "Se um brasileiro precisa de remeter às aulas de História para pensar em Portugal, ao português basta ligar a televisão para ver o Brasil", escrevia-se na Grande Reportagem de Abril de 2000 (p. 46).  Exemplificativamente, a música portuguesa no Brasil ainda hoje é muito conotada com nomes como o do cantor popular Roberto Leal[24].

Em termos económicos, provavelmente nunca houve tanto investimento português no Brasil como na actualidade[25], mesmo pesando os investimentos feitos pelos empresários portugueses que se refugiaram no Brasil no período pós-revolucionário de 1974-75, como António Champalimaud, que procuravam reconstruir as suas fortunas e os seus impérios industriais e comerciais.

Na verdade, os investimentos actuais da Portugal Telecom, nas telecomunicações, da EDP, na produção e distribuição de energia eléctrica, da Cimpor, nos cimentos, do Grupo Sousa Cintra, nas águas, sumos e cerveja, do Grupo Jerónimo Martins, na distribuição, ou do Grupo Sonae, na distribuição e nos aglomerados de madeira, são apenas alguns dos exemplos que poderia citar das estratégias de internacionalização no Brasil da indústria e comércio portugueses.  Atento a este facto, o ICEP já abriu, na sua delegação de São Paulo, um Centro de Apoio ao Investidor Português, e as associações empresariais portuguesas, como a Associação Empresarial de Portugal, promovem, com frequência, no Brasil, feiras e outros certames para apresentação dos produtos das empresas associadas.

Os investimentos brasileiros em Portugal também são importantes.  Neste campo, podem destacar-se, por exemplo, as participações do Grupo Globo e do Grupo Abril, os dois maiores grupos de media do Brasil, nos negócios mediáticos do ex-primeiro.ministro português e fundador do Expresso e da estação (privada) de televisão de maior sucesso em Portugal (a SIC), Francisco Pinto Balsemão.

O fenómeno recente da imigração brasileira para Portugal também terá contribuído para a redescoberta recíproca dos dois povos.  Saliente-se, porém, que, ao contrário do que sucedeu com as levas de emigrantes portugueses para o Brasil, constituídas, em grande medida, por população com baixa qualificação, os imigrantes brasileiros são, descontando os futebolistas, frequentemente, pessoas qualificadas, como dentistas, médicos, psicólogos, publicitários, arquitectos, professores, informáticos, etc.  No entanto, nem sempre a vida é fácil para os brasileiros que procuram emprego no nosso país.  Ao contrário da política de portas-abertas praticada pelo Brasil em relação aos emigrantes portugueses quando Portugal era um país de emigração, na actualidade, o nosso país, um tanto ou quanto ingratamente, tem criado imensas dificuldades à entrada e fixação de brasileiros.  Por isso, vão-se acumulando os emigrantes brasileiros ilegais no nosso país, com todos os problemas que isso levanta, e os casos de impedimento de entrada em Portugal a cidadãos brasileiros[26].  Segundo o historiador Osvaldo Munteal e o jornalista Mário Negreiros[27]:

 

"(...) 1986 marca outra fase importante na visão brasileira de Portugal.  O ingresso na União Europeia produziu, num primeiro momento, um sentimento de respeito -embora o Brasil seja muito influenciado pelos Estados Unidos, 'chique' mesmo ainda é, para os brasileiros, a Europa- mas logo a seguir veio a face antipática, o nariz arrebitado (...).  As restrições ao trabalho dos dentistas e, mais do que isso, os constatados maus-tratos impostos no Aeroporto de Lisboa a brasileiros humildes que tentavam -como há cinquenta anos atrás os minhotos e transmontanos- refazer a vida noutro país, fizeram de Portugal o parente que enriqueceu e deu as costas aos pobres da família.

(...)

Das escolas de samba (...) às escolas universitárias, há um ressentimento indisfarçável.  Quando se pensa na colonização protuguesa, o ênfase é dado à escravidão e à dizimação de índios.

(...)

Os extraordinários investimentos portugueses no Brasil (...)  são o novo dado (...).  O facto de alguns desses investimentos (...) serem feitos em actividades de alta tecnologia pode contribuir para varrer a imagem de arcaísmo de Portugal no Brasil.  Mas se as empresas alemãs no Brasil procuram realçar a sua própria nacionalidade para atribuir solidez aos seus produtos; se as empresas francesas procuram mostrar que se é francês é 'chique', as empresas portuguesas não fazem qualquer referência à sua origem.  Mais uma vez, portanto, a aproximação se dá no 'andar de cima'.  Para o 'andar de baixo', a visão brasileira de Portugal continua a depender, acima de tudo, do prazo que o 'seu' Manuel lhe conceder para o pagamento da conta atrasada."

 

Além das comemorações do quinto centenário da descoberta ou “achamento” do Brasil, um outro incontornável e palpável factor de aproximação entre os dois povos irmãos na última década foi a formalização da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP), em 1996 (tinha sido proposta em 1989).  A propósito, é justo realçar que a CPLP se deve, em grande medida, ao génio e ao entusiasmo do antigo embaixador brasileiro em Portugal, José Aparecido de Oliveira, e ao Alto Patrocínio do Presidente Itamar Franco, do Brasil. 

A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa é um projecto cultural e político-estratégico que pode vir a revelar-se importante para os países lusófonos, já que integra mais de duzentos milhões de pessoas que partilham uma língua comum.  Porém, parece-me que os seus objectivos ainda estão longe de serem alcançados, não só porque os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa estão, justamente, demasiado preocupados com os seus graves problemas internos -que vão da guerra ao subdesenvolvimento- para se poderem dedicar ao fortalecimento dos laços entre os povos lusófonos, mas também porque os dois restantes pilares da CPLP, Portugal e Brasil, fizeram opções geo-estratégicas diferentes.  No fundo, o grande problema da CPLP talvez resida na falta de vontade política para que o projecto dê certo.  Mas a sua fundação garantiu, pelo menos, o desanuviamento das relações entre Portugal e o Brasil, que se tinham deteriorado, em grande medida devido à questão, já referenciada, da legalização dos dentistas brasileiros em Portugal.

Uma outra questão pendente entre Portugal e o Brasil é o célebre Acordo Ortográfico.

Nos seus primeiros séculos de existência, a língua portuguesa tinha uma ortografia muito variável.  Este facto devia-se, essencialmente, ao estatuto secundário do português em relação ao latim, que fazia com que o ensino da língua portuguesa fosse descurado.  Aliás, os próprios gramáticos não se ocupavam muito dela e não havia uma entidade reguladora que promovesse a uniformização da escrita. Deste modo, as disparidades ortográficas do português, fenómeno natural dos processos de formação das línguas, só viriam a diminuir com a institucionalização do ensino e a generalização da imprensa.  Ainda assim, embora ao longo do século XIX tenham surgido vários projectos de reforma ortográfica, nenhum deles chegou a ser posto em prática.  Só no início do século XX foram implementadas normas ortográficas para o Português.

Em 1990, foi celebrado um Acordo Ortográfico entre a Academia das Ciências de Lisboa, a Academia Brasileira de Letras e representantes dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa, que deveria ser ratificado pelas autoridades oficiais dos sete países lusófonos.  Como vantagem, era proclamada uma ortografia mais simples e acessível, que asseguraria uma melhor comunicação no mundo lusófono e daria maior peso internacional ao idioma.  Porém, o acordo levantou problemas como o da acentuação das palavras, a possibilidade da mesma palavra se escrever de duas formas, etc.  Estes problemas suscitaram fortes polémicas, não apenas entre os linguistas mas também entre a população em geral.  Por força destes acontecimentos, o Acordo Ortográfico ainda não foi ratificado por todos os países lusófonos e, como tal, ainda não foi implementado.  Mesmo assim, a penetração dos produtos culturais brasileiros em Portugal levou à adopção de algumas particularidades linguísticas brasileiras por parte dos falantes do português de Portugal, como o popular “Oi!”, embora este fenómeno esteja, ao que parece, em regressão[28].

 

 

3.       Resultados e discussão

 

A pesquisa conducente à obtenção de respostas para as perguntas de investigação formuladas permitiu o levantamento dos dados quantitativos sistematizados nas tabelas a seguir inseridas[29]:

 

 

Tabela 1

Relevância da informação sobre o Brasil na amostra

(número de peças e espaço ocupado pelas peças, em cm2)

 

 

Jornal de Notícias

O Correio da Manhã**

Diário de Notícias

Público

Expresso

Visão

Grande Reportagem

Total de peças e espaço total ocupado por informação

5.074

100%

1.992.155

100%

2.978

100%

735.327

100%

4.412

100%

1.326.780

100%

3.402

100%

1.320.008

100%

4.631

100%

2.295.403

100%

1.798

100%

522.751

100%

492

100%

674.987

100%

 

Peças sobre o Brasil

13

0,3%

10.294

0,5%

25

0,8%

5.630

0,8%

29

0,7%

6.813

0,5%

18

0,5%

4.117

0,3%

8

0,2%

2.483

0,1%

9

0,5%

1.539

0,3%

7

1,4%

22.344

3,3%

Peças sobre Brasil-

-Portugal

20

0,4%

5.226

0,3%

16

0,5%

4.535

0,6%

22

0,5%

4.414

0,3%

12

0,4%

3.636

0,3%

6

0,1%

3.782

0,2%

7

0,4%

1.854

0,4%

3

0,6%

691

0,1%

Peças sobre

Brasil-

-Outros Países*

1

0,02%

140

0,007%

1

0,03%

41

0,005%

6

0,1%

137

0,01%

4

0,1%

1.072

0,08%

0

0%

0

0%

3

0,2%

1.053

0,2%

0

0%

0

0%

Outra situação envolvendo o Brasil

2

0,04%

589

0,03%

0

0%

0

0%

0

0%

0

0%

0

0%

0

0%

0

0%

0

0%

1

0,06%

916

0,2%

0

0%

0

0%

Totais de informação com menção ao Brasil

36

0,7%

16.249

0,8%

42

1,4%

10.206

1,4%

57

1,3%

11.364

0,9%

34

1%

8.825

0,7%

14

0,3%

6.265

0,3%

20

1,1%

5.362

1%

10

2%

23.035

3,4%

Média do espaço ocupado por edição por informação com menção ao Brasil

 

 

 

625

 

 

 

510

 

 

 

437

 

 

 

339

 

 

 

522

 

 

 

447

 

 

 

1.920

Média de peças por edição com informação sobre o Brasil

 

 

1,4

 

 

2,1

 

 

2,2

 

 

1,3

 

 

1,2

 

 

1,7

 

 

0,8

*Só foram classificadas peças nesta categoria quando há informação que verdadeiramente engloba um ou vários países além do Brasil e não apenas uma mera menção a esse país ou países.  Por exemplo, o jogo de uma final de um campeonato internacional de selecções de futebol pode ser incluído nesta categoria.  Porém, uma peça que diga respeito, por exemplo, ao treino da selecção brasileira para um jogo com outro país, é classificada como informação sobre o Brasil e não sobre Brasil  - Outros Países.

**Saliento, novamente, que apenas foram analisados vinte números do jornal O Correio da Manhã.  Os dados apenas se referem a esses vinte números.

Nota: nas células com quatro valores, os dois primeiros números dizem respeito ao número de peças e à respectiva percentagem; o terceiro e o quarto números dizem respeito ao espaço ocupado pelas peças e respectiva percentagem.

 

 

Analisando a tabela 1, posso dizer que, em termos absolutos, e tendo a amostra em consideração, existe pouca informação sobre o Brasil na imprensa portuguesa de grande circulação.  Mas, em termos relativos, a informação sobre o Brasil tem algum significado nessa imprensa: a média de peças publicadas por edição é sempre superior a uma peça (exceptuando o caso da GR), atingindo mesmo uma média de 2,2 peças por edição no DN; por seu turno, a média do espaço ocupado por informação com menção ao Brasil por edição é sempre superior a 339 cm2 (a ocupação de 339 cm2 equivale a uma peça com cerca de 18,4 cm de altura e largura), atingindo mesmo 625 cm2 no JN (o que equivaleria a uma peça com 25 cm de altura e largura) e 1.920 cm2 na Grande Reportagem (o que equivaleria a um artigo com cerca de 43,8 cm de altura e largura).  Em termos comparativos, registe-se que a mancha gráfica de uma página (isto é, a superfície útil de uma página) ronda, nos tablóides, 1.000 cm2.  625 cm2 corresponde, portanto, a mais de metade da mancha gráfica de uma página de um diário e 339 cm2 corresponde a cerca de um terço da mesma mancha gráfica.  Numa revista A4 a mancha gráfica atinge cerca de 550 cm2.  447 cm2 -marca atingida na Visão- correspondem, portanto, a quase uma página.  1920 cm2 -valor atingido na Grande Reportagem- equivaleria a uma peça que ocupasse 3,5 páginas da revista.

É possível também verificar, somando os valores obtidos para cada órgão jornalístico analisado, que a informação que respeita ao Brasil sem envolver Portugal atinge 127 peças, que ocupam 57.168 cm2.  As peças que respeitam simultaneamente ao Brasil e a Portugal são 86 e ocupam 24.138 cm2.  Assim, temos um total de 213 peças com informação relativa ao Brasil, que ocupam 81.306 cm2.  Percentualmente, 59,6% do total de peças com menção ao Brasil não dizem respeito a Portugal.  Estas peças ocupam 70,3% do espaço informativo com menção ao Brasil.  Por isso, e com excepção do Jornal de Notícias, é possível dizer que o Brasil se impõe por si mesmo, em termos informativos, à imprensa portuguesa.  O critério de noticiabilidade da proximidade funciona, assim, em termos relativos - não é necessário existir informação na qual Portugal esteja envolvido para que o Brasil seja objecto de cobertura jornalística.  No entanto, o critério parece funcionar quando se procura justificar a presença do Brasil, em geral, na imprensa portuguesa.  A proximidade linguística e até cultural (incrementada pelas importações portuguesas de conteúdos brasileiros), a proximidade afectiva, etc. favorecem, sem dúvida, o Brasil enquanto país a cobrir.

Antes de terminar a interpretação desta tabela, gostaria de deixar uma advertência: a elevada superfície consagrada à informação no semanário Expresso, em comparação com os jornais diários, é enganadora.  Tem de se considerar a forma como a amostra foi construída.  O Expresso é um jornal semanário que traz sempre uma revista e vários cadernos.  Já foi mesmo alcunhado de "O Espesso".  Todo o espaço informativo de cada número da amostra foi contabilizado na análise, o que engloba, naturalmente, o espaço informativo das revistas e dos cadernos.  Porém, os diários não trazem suplementos jornalísticos todos os dias.  Por exemplo, os diários, geralmente, inserem uma revista dominical, mas, da forma como a amostra foi construída, apenas se contabilizou o espaço informativo de duas dessas revistas dominicais publicadas ao longo de 1999.  Inversamente, no caso do Expresso contabilizou-se a superfície de 12 revistas, além da superfície de todos os cadernos não comerciais.  Por isso, e embora o Expresso seja um jornal de formato clássico, tendo os seus cadernos principais uma mancha gráfica de 2.033 cm2 por página (mais ou menos o dobro da mancha gráfica dos jornais diários, todos de formato tablóide), a diferença relativa entre o espaço ocupado por informação no Expresso e nos diários não é, na realidade, tão diferenciada como aquela que transparece da tabela.

 

 

Tabela 2

Ubiquação da informação sobre o Brasil e Brasil – Outros Países na amostra (em número de peças)

 

 

Jornal de Notícias

O Correio da Manhã

Diário de Notícias

Público

Expresso

Visão

Grande Reportagem

Total

16

100%

26

100%

35

100%

22

100%

8

100%

13

100%

7

100%

1ª página

0

0%

0

0%

0

0%

0

0%

0

0%

0

0%

0

0%

Página interior

16

100%

23

88,5%

35

100%

 

22

100%

7

87,5%

13

100%

7

100%

Última

página

0

0%

3

11,5%

0

0%

0

0%

1

12,5%

0

0%

0

0%

 

Tabela 3

Ubiquação da informação sobre Brasil – Portugal na amostra (em número de peças)

 

 

Jornal de Notícias

O Correio da Manhã

Diário de Notícias

Público

Expresso

Visão

Grande Reportagem

Total

20

100%

16

100%

22

100%

12

100%

6

100%

7

100%

3

100%

1ª página

0

0%

0

0%

0

0%

0

0%

0

0%

0

0%

0

0%

Página interior

20*

100%

16

100%

22

100%

12

100%

6

100%

7

100%

3

100%

Última

página

0

0%

0

0%

0

0%

0

0%

0

0%

0

0%

0

0%

*Existe uma chamada à primeira página, mas a notícia é publicada no interior.

 

 

Pela observação dos dados expressos nas tabelas 2 e 3, sou levado a concluir que o critério de noticiabilidade da proximidade[30] não funcionou em matéria de chamadas à primeira página ou de inserção de notícias na primeira página.  De facto, quer as notícias sobre o Brasil envolvendo Portugal quer as notícias exclusivamente sobre o Brasil ou Brasil – Outros Países (excluindo Portugal) foram, sem excepção, inseridas em páginas interiores.  O grafismo também influencia este resultado, pois nem todos os jornais publicam “por inteiro” notícias na primeira página.  O único jornal que fez uma chamada à primeira página para uma notícia envolvendo o Brasil foi o JN, sendo de realçar que essa notícia também implicava Portugal.

 

 

Tabela 4

Sentido da informação mista, envolvendo Portugal e Brasil, na amostra (em número de peças)

 

 

Jornal de Notícias

O Correio da Manhã

Diário de Notícias

Público

Expresso

Visão

Grande Reportagem

Total

20

100%

16

100%

22

100%

12

100%

6

100%

7

100%

3

100%

Portugal no Brasil

3

15%

4

25%

6

27,3%

5

41,7%

0

0%

2

28,6%

0

0%

Portugal - Brasil

4

20%

1

6,2%

8

36,4%

4

33,3%

6

100%

3

42,8%

3

100%

Brasil em Portugal

13

65%

11

68,8%

8

36,4%

3

25%

0

0%

2

28,6%

0

0%

 

 

Verifiquei, através da tabela 4, que, na generalidade dos jornais e na revista Visão, a informação que envolveu simultaneamente Portugal e o Brasil foi relativamente equilibrada no que respeita ao peso de cada um dos países nessa informação (categoria Portugal - Brasil).  Porém, no jornal O Correio da Manhã e no Jornal de Notícias a maior parte deste tipo de informação pode incluir-se na categoria “Brasil em Portugal”, ou seja, em grande medida, a informação mista dizia respeito a temas que estão relacionados com a “vivência do Brasil em Portugal”, como é o caso, por exemplo, das notícias sobre as telenovelas brasileiras que passam em Portugal ou sobre jogadores de futebol brasileiros que jogam no nosso país, funcionando, portanto, o critério de noticiabilidade da proximidade[31].  No Diário de Notícias, a informação sobre “Portugal - Brasil” e “Brasil em Portugal” foi similar, em número de peças publicadas, evidenciando, igualmente, a activação do critério de valor-notícia da proximidade.  No global, 20 peças (23,3%) foram classificadas na categoria "Portugal no Brasil", 29 peças (33,7%) foram classificadas na categoria "Portugal - Brasil" e 37 peças (43%) foram classificadas na categoria "Brasil em Portugal", ou seja, a maior parte da informação que surgiu na imprensa portuguesa e que envolveu os dois países dizia respeito à "vivência do Brasil em Portugal", embora este dado seja distorcido pelos números d'O Correio da Manhã e do Jornal de Notícias. 

 

 

Tabela 5

Ponto de vista dominante/tendencial das peças com menção ao Brasil na amostra

(em número de peças e espaço ocupado, em cm2)

 

 

Jornal de Notícias

O Correio da Manhã

Diário de Notícias

Público

Expresso

Visão

Grande Reportagem

 

Total

36

100%

16.249

100%

42

100%

10.206

100%

57

100%

11.364

100%

34

100%

8.825

100%

14

100%

6.265

100%

20

100%

5.362

100%

10

100%

23.035

100%

 

Peças neutras

12

33,3%

9.286

57,1%

18

42,8%

3.610

35,4%

11

19,3%

1.322

11,6%

6

17,6%

1.634

18,5%

8

57,1%

3.278

52,3%

8

40%

1.797

33,5%

4

40%

6.364

27,6%

Positivo para o Brasil

12

33,3%

1.754

10,8%

9

21,4%

2.914

28,5%

20

35,1%

3.807

33,5%

15

44,1%

4.098

46,4%

2

14,3%

622

9,9%

7

35%

1.733

32,3%

1

10%

3.312

14,4%

Negativo para o Brasil

4

11,1%

2.227

13,7%

7

16,7%

884

8,7%

15

26,3%

2.518

22,2%

9

26,5%

799

9%

2

14,3%

500

8%

4

20%

916

17,1%

4

40%

13.248

57,5%

Positivo para as relações Portugal-Brasil

7

19,4%

2.641

16,3%

7

16,7%

1.611

15,8%

11

19,3%

3.717

32,7%

3

8,8%

2.073

23,4%

2

14,3%

1.865

29,8%

0

0%

0

0%

0

0%

0

0%

Negativo para as relações Portugal-Brasil

1

2,8%

341

2,1%

1

2,4%

1.187

11,6%

0

0%

0

0%

1

2,9%

221

2,5%

0

0%

0

0%

1

5%

916

17,1%

1

10%

111

0,5%

Nota: os dois primeiros números de cada célula dizem respeito ao número de peças e à respectiva percentagem; o terceiro e o quarto números de cada célula dizem respeito ao espaço ocupado pelas peças e respectiva percentagem.

 

 

A análise da tabela 5 permite dizer que, tendo em consideração a amostra, e com excepção do que sucede na Grande Reportagem, a maioria das peças publicadas na imprensa portuguesa de grande circulação com informação relativa ao Brasil foi tendencialmente neutra ou positiva para o Brasil ou para as relações entre Portugal e o Brasil.  Em concreto, tomando o número de peças na sua globalidade, 31% das peças evidenciavam um ângulo tendencialmente positivo para o Brasil e 14,1% evidenciavam um ângulo tendencialmente positivo para as relações entre Portugal e o Brasil, enquanto apenas 21% das peças eram tendencialmente negativas para o Brasil e 6% eram tendencialmente negativas para as relações entre Portugal e o Brasil (27,9% das peças eram tendencialmente neutras ou equilibradas).  Portanto, na minha análise, pode não só dizer-se que a imagem que a imprensa portuguesa transmite do Brasil foi predominantemente positiva como também que essa imagem beneficiou as relações entre os dois países[32]. 

As peças que enfatizavam uma visão tendencialmente negativa sobre o Brasil diziam respeito a realidades como as condições de vida nas prisões, os protestos do MST, a instabilidade cambial, o desemprego no Estado de São Paulo, etc.; pelo contrário, as peças que enfatizavam uma visão tendencialmente positiva do Brasil diziam respeito à produção de conteúdos culturais (principalmente música), à capacidade que o governo brasileiro mostrava de controlar a crise económica, etc.  Peças que abordavam feiras, investimentos, acordos luso-brasileiros, etc. foram consideradas como sendo tendencialmente positivas para as relações entre os dois países.

 

 

Tabela 6

Secção de inserção das peças sobre o Brasil e Brasil – Outros Países na amostra

(em número de peças e espaço ocupado, em cm2)

 

 

Jornal de Notícias

O Correio da Manhã

Diário de Notícias

Público

Expresso

Visão

Grande Reportagem

 

Total

16

100%

11.023

100%

26

100%

5.671

100%

35

100%

6.950

100%

22

100%

5.189

100%

8

100%

2.483

100%

13

100%

3.508

100%

7

100%

22.344

100%

 

Destaque

0

0%

0

0%

0

0%

0

0%

3

8,6%

963

13,9%

0

0%

0

0%

0

0%

0

0%

0

0%

0

0%

0

0%

0

0%

 

Internacional

3

18,75%

1.204

10,9%

4

15,4%

185

3,3%

3

8,6%

612

8,8%

5

22,7%

1.338

25,8%

2

25%

500

20,1%

0

0%

0

0%

0

0%

0

0%

 

Economia

3

18,75%

2.209

20%

0

0%

0

0%

13

37,1%

1.696

24,4%

6

27,3%

1.615

31,1%

3

37,5%

754

30,4%

3

23,1%

498

14,2%

0

0%

0

0%

 

Desporto

6

37,5%

5.830

52,9%

9

34,6%

3.190

56,2%

4

11,4%

1.378

19,8%

2

9,1%

499

9,6%

0

0%

0

0%

1

7,6

302

8,6%

0

0%

0

0%

Cultura, espectáculos, TV, etc.

4

25%

1.780

16,2%

11

42,3%

2.188

38,6%

6

17,1%

1.506

21,7%

7

31,9%

1.422

27,4%

1

12,5%

312

12,6%

3

23,1%

1.049

29,9%

0

0%

0

0%

 

Páginas editoriais

0

0%

0

0%

0

0%

0

0%

0

0%

0

0%

0

0%

0

0%

0

0%

0

0%

0

0%

0

0%

0

0%

0

0%

 

Sociedade

0

0%

0

0%

0

0%

0

0%

4

11,4%

593

8,5%

1

4,5%

210

4%

1

12,5%

607

24,4%

3

23,1%

711

20,3%

0

0%

0

0%

Outra secção/

suplementos

0

0%

0

0%

2

7,7%

108

1,9%

2

5,7%

202

2,9%

1

4,5%

105

2%

1

12,5%

310

12,5%

3

23,1%

948

27%

7

100%

22.344

100%

Nota: Embora a revista Grande Reportagem possua secções fixas, elas não coincidem com as secções dos restantes periódicos analisados.  A maior parte das peças que a revista publica insere-se nas secções “Reportagem” ou “Viagem”, que ocupam a maior parte de cada número da Grande Reportagem.  Daí que a totalidade das peças tenha sido classificada na categoria “Outra secção”.

Nota: os dois primeiros números de cada célula dizem respeito ao número de peças e à respectiva percentagem; o terceiro e o quarto números de cada célula dizem respeito ao espaço ocupado pelas peças e respectiva percentagem.

 

 

Tabela 7

Secção de inserção das peças sobre Brasil – Portugal na amostra

(em número de peças e espaço ocupado, em cm2)

 

 

Jornal de Notícias

O Correio da Manhã

Diário de Notícias

Público

Expresso

Visão

Grande Reportagem

 

Total

20

100%

5.226

100%

16

100%

4.535

100%

22

100%

4.414

100%

12

100%

3.636

100%

6

100%

3.782

100%

7

100%

1.854

100%

3

100%

691

100%

 

Destaque

0

0%

0

0%

0

0%

0

0%

3

13,6%

1.026

23,2%

0

0%

0

0%

0

0%

0

0%

1

14,3%

280

15,1%

0

0%

0

0%

 

Interna-cional

0

0%

0

0%

0

0%

0

0%

0

0%

0

0%

0

0%

0

0%

2

33,3%

968

25,6%

0

0%

0

0%

0

0%

0

0%

 

Economia

3

15%

1.167

22,3%

4

25%

1.740

38,4%

3

13,6%

695

15,7%

4

33,3%

1.446

39,8%

3

50%

2.095

55,4%

3

42,9%

1.098

59,2%

0

0%

0

0%

 

Desporto

10

50%

2.314

44,3%

0

0%

0

0%

3

13,6%

889

20,1%

1

8,3%

608

16,7%

0

0%

0

0%

0

0%

0

0%

0

0%

0

0%

Cultura, espectáculos, TV, etc.

6

30%

771

14,7%

11

68,8%

2.698

59,5%

8

36,4%

1.232

27,9%

4

33,3%

680

18,7%

1

16,7%

719

19%

1

14,3%

423

22,8%

0

0%

0

0%

 

Páginas editoriais

0

0%

0

0%

0

0%

0

0%

0

0%

0

0%

0

0%

0

0%

0

0%

0

0%

0

0%

0

0%

1

33,3%

111

16,1%

 

Sociedade

0

0%

0

0%

1

6,2%

97

2,1%

0

0%

0

0%

3

25%

902

24,8%

0

0%

0

0%

2

28,5%

53

2,8%

0

0%

0

0%

Outra secção/

suplementos

1

5%

974

18,6%

0

0%

0

0%

5

22,7%

572

13%

0

0%

0

0%

0

0%

0

0%

0

0%

0

0%

2

66,7%

580

83,9%

Nota: Embora a revista Grande Reportagem possua secções fixas, elas não coincidem com as secções dos restantes periódicos analisados.  Daí os resultados serem algo atípicos.

 

 

Quanto à secção de inserção de peças sobre o Brasil e Brasil – Outros Países, notei que existiu um número de peças inferior ao que esperava na secção Internacional.  O destaque dado à informação sobre Cultura, TV e Espectáculos em todos os jornais, à excepção do Expresso e da revista Grande Reportagem, demonstra, na minha opinião, a capacidade de penetração dos produtos culturais brasileiros em Portugal e o interesse (jornalístico e do público) que existe sobre esses mesmos produtos (desde as telenovelas aos programas do Ratinho ou da Tiazinha).  

O JN é um jornal “popular” que tradicionalmente privilegia a informação desportiva, particularmente o futebol (além da informação local); portanto, o destaque dado neste jornal ao desporto brasileiro corresponde ao esperado.  O mesmo se pode dizer do "popular" Correio da Manhã.  Os jornais de referência Público, Expresso e Diário de Notícias, bem como a revista Visão, conforme esperava, dão menos destaque aos conteúdos desportivos.

A importância actual da economia brasileira, num contexto simultâneo de globalização e de formação de grandes organizações de mercado (neste caso, o Mercosul), reflectiu-se no destaque dado à informação económica com menção ao Brasil, com excepção do "popular" Correio da Manhã e da revista mensal de grandes reportagens Grande Reportagem, que não possui, sequer, uma secção regular de economia (a maior parte dos conteúdos da GR insere-se nas secções genéricas "Reportagem" e "Viagem").

O Diário de Notícias foi o único jornal a incluir na secção Destaque três peças sobre o Brasil.  Um tanto ou quanto estranhamente, nenhum dos jornais analisados fez referência ao Brasil nas páginas editoriais, tradicionalmente usadas para veiculação de opinião e análises.

As peças com informação simultânea sobre Brasil e Portugal tiveram uma distribuição algo semelhante à das peças sobre o Brasil e Brasil - Outros Países nos órgãos de comunicação analisados, provavelmente pelos mesmos motivos.  A natural excepção refere-se à inserção de peças na secção Internacional, que foi, logicamente, maior para a informação sobre o Brasil e Brasil - Outros Países.  Ainda assim, julgava que a actual estratégia de internacionalização da economia portuguesa, parcialmente direccionada para o Brasil, gerasse um maior volume de informação na área económica, apesar de esta ser relevante em todos os jornais (embora o Diário de Notícias tenha inserido menos informação na secção de economia do que eu supunha que acontecesse). 

É ainda de referir que os dados recolhidos, pondere-se o número de peças ou o espaço informativo por elas ocupado, apontam no sentido das mesmas conclusões genéricas que se extraíram da análise à informação sobre Brasil - Outros Países, ou seja, notou-se, efectivamente, com excepção da Grande Reportagem, um destaque relativo à informação sobre Cultura, TV e Espectáculos, hipoteticamente devido ao interesse que a produção cultural brasileira desperta entre nós, e um destaque claro do fenómeno desportivo no Jornal de Notícias, provavelmente numa tentativa de correspondência ao sistema de expectativas do seu público.

 

 

Tabela 8

Tema específico dominante da informação sobre o Brasil e Brasil – Outros Países na amostra

(em número de peças e espaço ocupado em cm2)

 

 

Jornal de Notícias

O Correio da Manhã

Diário de Notícias

Público

Expresso

Visão

Grande Reportagem

 

Total

16 peças

11.023 cm2

100%

26 peças

5.671 cm2

100%

35 peças

6.950 cm2

100%

22 peças

5.189 cm2

100%

8 peças

2.483 cm2

100%

13 peças

3.508 cm2

100%

7 peças

22.344cm2

100%

Relações políticas e diplomáticas Brasil -

ONU

1

6,25%

480

4,4%

 

 

-

 

 

-

 

 

-

 

 

-

 

 

-

 

 

-

Conflitos ou crises internas, manifestações

2

12,5%

724

6,6%

 

-

1

2,9%

78

1,1%

4

13,6%

1.059

20,4%

1

12,5%

265

10,7%

 

-

 

-

Nomeações, mudanças no Governo, projectos do Governo, personalidades do Governo

 

1

6,25%

250

2,3%

 

 

 

-

 

 

 

-

 

1

4,5%

279

5,4%

 

 

 

-

 

2

15,4%

344

9,8%

 

 

 

-

Outros temas políticos, legislação

1

6,25%

476

4,2%

 

-

1

2,9%

170

2,4%

 

-

 

-

1

7,7%

304

8,7%

 

-

Relações económicas Brasil-EUA

 

-

 

-

3

8,5%

183

2,6%

 

-

 

-

 

-

 

-

Relações económicas Brasil-Outros países

 

 

-

 

 

-

5

14,2%

424

6,1%

 

 

-

1

12,5%

310

12,5%

 

 

-

 

 

-

Questões monetárias: taxas de câmbio, taxas de juro, etc.

 

1

6,25%

405

3,7%

 

 

-

 

3

8,5%

522

7,5%

 

2

9,1%

732

14,1%

 

1

12,5%

192

7,7%

 

 

-

 

 

-

Investimentos ou fluxos de capital, fusões e aquisições, bolsa, dividendos, lucros das empresas

 

 

 

-

 

 

 

-

 

 

1

2,9%

501

7,2%

 

 

3

13,6%

594

11,4%

 

 

 

-

 

 

1

7,7%

110

3,1%

 

 

 

-

 

Problemas económicos

 

-

1

3,8%

36

0,6%

1

2,9%

81

1,1%

 

-

 

-

1

7,7%

226

6,4%

 

-

Outros tópicos económicos positivos ou neutros

 

 

-

 

 

-

1

2,9%

218

3,1%

1

4,5%

289

5,6%

2

25%

562

22,6%

1

7,7%

462

13,2%

 

 

-

Problemas sociais em geral, MST e reforma agrária, vida nas favelas

 

 

-

 

1

3,8%

108

1,9%

 

 

-

 

 

-

 

 

-

 

 

-

 

1

14,3%

4.968

22,2%

Problemas da justiça, vida nas prisões, corrupção e compadrio na justiça

 

 

-

 

 

-

 

 

-

 

 

-

 

 

-

 

 

-

 

1

14,3%

4.416

19,8%

 

Pornografia infantil

 

-

 

-

1

2,9%

196

2,8%

 

-

 

-

 

-

 

-

Crimes e delitos de grande dimensão, assassinatos

 

 

-

1

3,8%

40

0,7%

1

2,9%

44

0,6%

1

4,5%

210

4%

1

12,5%

235

9,5%

 

 

-

 

 

-

 

Tráfico de droga

 

-

1

3,8%

34

0,6%

 

-

 

_

 

-

 

-

 

-

Êxitos na luta contra o tráfico de droga, prisões de traficantes, campanhas contra o tráfico de droga

 

 

 

 

-

 

 

 

1

3,8%

75

1,3%

 

 

 

1

2,9%

182

2,6%

 

 

 

 

_

 

 

 

 

-

 

 

 

 

 

-

 

 

 

 

-

Grandes acidentes e catástrofes, incêndios, queimadas

 

 

-

 

 

-

1

2,9%

217

3,1%

 

 

-

 

 

-

 

 

-

 

 

-

Artes plásticas, artesanato,

arquitectura, exposições de arte

 

 

-

 

1

3,8%

43

0,8%

 

 

-

 

 

_

 

 

-

 

 

-

 

 

-

 

Espectáculos multifacetados

 

 

-

1

3,8%

33

0,6%

 

-

 

-

 

-

 

-

 

-

Espectáculos musicais, músicas e músicos, concertos

2

12,5%

1.780

16,1%

1

3,8%

52

0,9%

5

14,2%

1.210

17,4%

1

4,5%

225

4,3%

 

 

-

 

 

-

 

Literatura, escritores, críticas e tertúlias literárias, exposições e feiras do livro

 

 

 

-

 

 

1

3,8%

34

0,6%

 

 

1

2,9%

296

4,2%

 

 

5

22,7%

1.202

23,2%

 

 

 

-

 

 

 

-

 

 

 

-

Teatro, cinema, actores

 

-

 

-

 

-

 

-

1

12,5%

312

12,6%

2

15,4%

449

12,8%

 

-

Telenovelas, actores de telenovelas

 

-

8

30,8%

2.026

35,7%

2

5,7%

577

8,3%

 

-

 

-

 

-

 

-

Outros temas de TV, rádio, etc.

 

-

 

-

1

2,9%

386

5,5%

 

-

 

-

 

-

1

14,3%

3.312

14,8%

Turismo, locais turísticos, viagens

2

12,5%

1.078

9,8%

 

-

 

-

 

-

 

-

1

7,7%

510

14,5%

1

14,3%

3.312

14,8%

 

Futebol, futebolistas

6

37,5%

5.830

55,9%

6

23,1%

2.351

41,5%

2

5,7%

417

6%

2

9,1%

499

9,6%

1

12,5%

607

24,4%

1

7,7%

302

8,6%

 

-

Outros desportos, outros desportistas

 

-

3

11,6%

839

14,8%

3

8,5%

961

13,8%

2

9,1%

100

1,9%

 

-

 

-

 

-

Religiões tradicionais, religiosos

 

-

 

-

 

-

 

-

 

-

1

7,7%

600

17,1%

2

28,5%

4.128

18,5%

Novas religiões, seitas, IURD

 

-

 

-

 

-

 

-

 

-

1

7,7%

150

4,3%

 

-

Assuntos de interesse humano não classificáveis noutras categorias

 

 

-

 

 

-

 

1

2,9%

287

4,1%

 

 

-

 

 

-

 

1

7,7%

51

1,5%

 

 

-

História do Brasil, visões globais e actuais do Brasil

 

 

-

 

 

-

 

 

-

 

 

-

 

 

-

 

 

-

 

1

14,3%

2.208

9,9%

Nota 1: Nota 1: o primeiro valor em cada célula refere-se ao número de peças, sendo seguido pela respectiva percentagem; o terceiro valor refere-se ao espaço ocupado pelas peças, em cm2, sendo seguido pela respectiva percentagem.

 

 

Tabela 9

Tema específico dominante da informação sobre Brasil - Portugal na amostra

(em número de peças e espaço ocupado em cm2)

 

 

Jornal de Notícias

O Correio da Manhã

Diário de Notícias

Público

Expresso

Visão

Grande Reportagem

 

Total

20

5.226 cm2

100%

16

4.535

100%

22

4.414

100%

12

3.636

100%

6

3.782

100%

7

1.854

100%

3

691

100%

Relações políticas e diplomáticas Brasil-Portugal (visão positiva ou neutra), cimeiras, reuniões

 

 

 

-

 

 

 

 

-

 

 

 

 

-

 

 

 

-

 

 

1

16,7%

413

10,9%

 

 

 

-

 

 

 

-

Emigrantes portugueses no Brasil (visão positiva ou neutra)

 

 

-

 

 

-

1

4,55%

90

2%

 

 

-

 

 

-

 

 

-

 

 

-

Fugas de criminosos para Portugal

 

-

 

-

 

-

1

8,3%

240

6,6%

 

-

 

-

 

-

Relações macro-económicas Brasil-Portugal e UE-Mercosul

 

 

-

 

 

-

 

 

-

 

 

-

1

16,7%

968

25,6%

 

 

-

 

 

-

Investimentos ou fluxos de capital, fusões e aquisições, dividendos, lucros das empresas

 

1

5%

310

5,9%

 

3

18,75%

553

12,2%

 

2

9,1%

200

4,6%

 

3

25%

1.225

33,7%

 

2

33,3%

1.127

29,8%

 

3

42,8%

1.098

59,2%

 

 

 

 

-

Outros tópicos económicos positivos ou neutros

1

5%

857

16,4%

1

6,25%

1.187

26,2%

2

9,1%

278

6,3%

1

8,3%

221

6,1%

 

 

-

 

 

-

 

 

-

Outros tópicos económicos negativos

 

-

 

-

1

4,55%

217

4,9%

 

-

 

-

 

-

 

 

-

 

Futebol e futebolistas

8

40%

1.674

32%

 

-

 

3

13,6%

633

14,4%

1

8,3%

608

16,7%

 

-

 

-

 

-

Outros desportos e outros desportistas

2

10%

640

12,2%

 

-

1

4,55%

256

5,8%

 

-

 

-

 

-

 

-

Comemoração dos 500 anos da descoberta do Brasil

 

 

-

1

6,25%

97

2,1%

3

13,6%

598

13,5%

1

8,3%

230

6,3%

1

16,7%

555

14,7%

1

14,3%

280

15,1%

2

66,6%

139

20,1%

Ciências sociais e humanas, acções de ciência (congressos...)

 

 

-

 

 

-

 

 

-

 

1

8,3%

182

5%

 

 

-

 

 

-

 

 

-

Cinema, teatro, actores, problemas do cinema e dos actores

 

2

10%

247

4,7%

 

1

6,25%

332

7,3%

 

1

4,55%

317

7,2%

 

 

-

 

 

-

 

 

-

 

1

33,3%

552

79,9%

Músicos, músicas, espectáculos e concertos

3

15%

424

8,1%

6

37,5%

1.562

34,4%

4

18,2%

1.253

28,4%

2

16,7%

277

7,6%

 

-

 

-

 

-

Literatura, escritores, críticas e tertúlias literárias, livros, exposições e feiras do livro

 

 

2

10%

974

18,6%

 

 

 

-

 

 

1

4,55%

187

4,2%

 

 

1

8,3%

221

6,1%

 

 

 

 

-

 

 

1

14,3%

25

1,4%

 

 

 

-

Espectáculos multifacetados, grandes festas, festivais

 

 

-

2

12,5%

687

15,1%

1

4,55%

120

2,7%

 

 

-

1

16,7%

719

19%

 

 

-

 

 

-

 

 

TV, rádio, etc.

 

-

2

12,5%

117

2,5%

1

4,55%

215

4,9%

1

8,3%

1.432

39,4%

 

-

1

14,3%

423

22,8%

 

-

 

Moda, desfiles

1

5%

100

1,9%

 

-

1

4,55%

50

1,1%

 

-

 

-

 

-

 

-

Assuntos de interesse humano não classificáveis noutras categorias

 

 

-

 

 

-

 

 

-

 

 

-

 

 

-

 

1

14,3%

28

1,5%

 

 

-

Nota 1: o primeiro valor em cada célula refere-se ao número de peças, sendo seguido pela respectiva percentagem; o terceiro valor refere-se ao espaço ocupado pelas peças, em cm2, sendo seguido pela respectiva percentagem.

 

 

A distribuição da matéria informativa pelos temas específicos da informação (tabelas 8 e 9) confirma, no essencial, as conclusões genéricas que já extraí dos dados expostos nas tabelas 6 e 7.  Inclusivamente, se procedermos a uma contabilização dos totais de todos os órgãos jornalísticos estudados por categoria, verificamos que os conteúdos principais da informação sobre o Brasil se podem inscrever nas grandes áreas temáticas da produção cultural (24,5% das peças - 7,9% sobre telenovelas, 7,9% sobre literatura e artes e 7,1% sobre música), economia e negócios (22,8%), futebol (14,2%) e política e diplomacia (12,6%); quase da mesma maneira, os conteúdos com referência simultânea ao Brasil e a Portugal podem inscrever-se nas grandes áreas temáticas da produção cultural (41,9% das peças - 11,6% sobre telenovelas, 10,5% sobre música, 9,3% sobre literatura), economia e negócios (24,4%), futebol (13,9%), 500 anos do descobrimento do Brasil (10,5%) e outros desportos (9,3%).

A análise das tabelas 8 e 9 permite também descobrir que existe alguma diversidade temática entre os jornais e revistas analisados, no que respeita à informação sobre o Brasil, sobre Brasil - Outros Países e mesmo sobre Brasil - Portugal.

Em concreto, a tabela 8 revela que o Diário de Notícias, com informação distribuída por dezanove categorias, foi o jornal que abordou mais tópicos informativos, apresentando, portanto, um índice de diversidade temática superior aos restantes órgãos de comunicação social, pelo menos no que respeita à informação sobre o Brasil e Brasil - Outros Países.  O DN é seguido pelo Correio da Manhã (informação distribuída por doze categorias), Visão (informação distribuída por onze categorias), Público (informação distribuída por dez categorias), Jornal de Notícias (informação distribuída por oito categorias), Expresso (informação distribuída por sete categorias) e Grande Reportagem (informação distribuída por seis categorias).  Se em relação à Grande Reportagem o resultado não me parece surpreendente, já que a revista publica, como o seu próprio nome indica, grandes reportagens, surgindo poucas peças em cada número, no que respeita à imprensa diária e semanal os resultados relativos à diversidade temática são inferiores aos que eu esperava, em especial nos casos do Público e do Expresso.

Prosseguindo com a análise dos dados expostos na tabela 8, referente à informação sobre o Brasil e Brasil - Outros Países, parece-me ser possível afirmar o seguinte:

· Revelando a importância que a economia brasileira tem para o mundo e para Portugal, em época de globalização e de internacionalização das empresas portuguesas, os temas políticos foram menos destacados do que os temas económicos, com excepção do Correio da Manhã (que pouco abordou uns ou outros, preferindo dirigir a sua atenção, enquanto jornal assumidamente "popular", para as telenovelas, etc.), da revista Visão (onde se notou um equilíbrio entre os temas políticos e os económicos) e da Grande Reportagem (que também não se referiu a política nem a economia, preferindo direccionar-se essencialmente para temas sociais e turísticos susceptíveis de constituir matéria para grandes reportagens);

· O news item "conflitos e crises internas" só foi particularmente destacado no jornal Público, o que demonstra que a imprensa portuguesa de grande circulação não trata o Brasil como um país instável, nomeadamente se excluirmos os aspectos económicos da questão;

· Correspondendo às minhas expectativas, no campo da informação desportiva, e com a excepção do Diário de Notícias e da Grande Reportagem (que nem sequer toca no tema), o futebol é mesmo o desporto-rei; neste aspecto, é de salientar a prestação já tradicional do Jornal de Notícias no campo da informação desportiva, sendo acompanhado pelo "popular" Correio da Manhã;

· Ao contrário do que eu esperava, o tema do Brasil como país turístico por excelência esteve pouco presente nos jornais (aliás, só esteve presente no Jornal de Notícias); porém, indo ao encontro das minhas expectativas, o mesmo não sucedeu nas revistas (magazines) Visão e Grande Reportagem;

· Temas particularmente negativos para a imagem do Brasil, como crimes e delitos, prostituição, tráfico de droga, etc. foram pouco abordados, deixando transparecer que a imprensa portuguesa de grande circulação não representa o Brasil como um país particularmente inseguro; porém, a Grande Reportagem, que destacou temas sociais problemáticos (protestos do MST, vida nas prisões brasileiras, etc.), operou no sentido contrário, dando uma visão particularmente negativa do Brasil (apesar de também falar do Brasil como país turístico, mais ainda, como um país que, em tempos de destruição natural e degradação ambiental, ainda possui um património natural de inegável valor);

· Embora eu pensasse, inicialmente, que quer a imprensa diária quer a semanal destacassem os espectáculos musicais das "estrelas" brasileiras, essa minha expectativa só encontrou correspondência na imprensa diária; a presença de informação sobre teatro foi residual (apenas surge na Visão e no Expresso), tal como a informação sobre literatura, com excepção do Público, que lhe dedicou bastante relevo;

· Apesar do impacto que as novas "seitas" ou "religiões", como a IURD, tiveram ou ainda têm em Portugal, o tema foi pouco abordado na imprensa portuguesa de grande circulação, ao contrário do que eu esperaria; mas este facto também demonstra, na minha opinião, que a IURD adoptou um low profile em Portugal, o que retirou essa Igreja das manchetes dos jornais; o pouco destaque dado a essa temática será, provavelmente, uma consequência do tema IURD se ter tornado um assunto, de alguma maneira, "esgotado".

A informação sistematizada na tabela 9, quando comparada com a da tabela 8, mostra que tende a existir maior diversidade temática na cobertura de assuntos sobre o Brasil e Brasil - Outros Países do que na cobertura de assuntos sobre Brasil - Portugal.  O Diário de Notícias continua a ser o jornal que apresenta maior diversidade temática na cobertura de assuntos noticiosos que envolvam simultaneamente Brasil e Portugal.  Todavia, neste jornal a informação sobre Brasil - Portugal distribuiu-se por apenas treze categorias, menos seis categorias do que na tabela 8, que respeitava à informação sobre o Brasil e Brasil - Outros Países.  Em matéria de diversidade temática na cobertura de assuntos sobre Brasil - Portugal, seguem-se o Público (informação distribuída por nove categorias, menos uma do que anteriormente), o Jornal de Notícias (informação distribuída por oito categorias, valor de diversidade temática idêntico ao respeitante à tabela acerca da cobertura relacionada com o Brasil e Brasil - Outros Países), o Correio da Manhã (informação distribuída por sete categorias, menos cinco do que sucedeu na tabela 8), Visão (informação distribuída por cinco categorias, menos seis do que anteriormente) e Grande Reportagem (que apenas aborda dois temas -as comemorações dos 500 anos do "achamento" do Brasil e cinema-, dando pouco destaque à informação sobre os dois países).

Prosseguindo a análise dos dados sistematizados na tabela 9, respeitante à informação jornalística que envolve simultaneamente o Brasil e Portugal, é possível ainda concluir o seguinte:

· Reflectindo a estratégia de internacionalização das empresas portuguesas e a importância que a economia brasileira tem para Portugal, também aqui a informação sobre economia se sobrepôs à informação sobre política, em toda a imprensa (se ignorarmos a Grande Reportagem, que não abordou temas políticos ou económicos); aliás, o semanário Expresso é o único periódico que aborda o tema das relações políticas e diplomáticas entre Portugal e o Brasil;

· No desporto, também aqui a cobertura do futebol liderou a informação desportiva, o que é particularmente relevante no Jornal de Notícias, diário que dá particular destaque ao desporto nas suas páginas; algo estranhamente, esteve ausente do Correio da Manhã, outro jornal "popular", informação desportiva que envolvesse simultaneamente Portugal e o Brasil, mesmo existindo, como existem, tantos jogadores brasileiros de futebol a jogar em Portugal;

· Com excepção do Jornal de Notícias, toda a imprensa fez referência, nas datas analisadas, às comemorações dos 500 anos da descoberta do Brasil, que iriam ter lugar no ano seguinte (2000), embora, em termos relativos, tenha sido providenciada pouca informação acerca do tema;

· Mais uma vez se nota que é a imprensa diária que deu maior destaque à informação sobre a música e os músicos brasileiros em Portugal (e vice-versa), particularmente sobre os espectáculos musicais; Correio da Manhã, Diário de Notícias e Expresso também se referem a grandes espectáculos e festas luso-brasileiros de cariz multifacetado;

· Aquilo que literariamente se faz com a língua que une Portugal e o Brasil constituiu um tema pouco abordado na imprensa portuguesa; de facto, os assuntos literários luso-brasileiros foram apenas focados, e com dimensão relativamente reduzida, no Jornal de Notícias, Diário de Notícias, Público e Visão;

· Os assuntos relacionados com  televisão mereceram destaque relativo no Público e na Visão (onde se abordaram os problemáticos programas do Ratinho e da Tiazinha, por exemplo), tendo sido também referenciados no Correio da Manhã (particularmente telenovelas) e no Diário de Notícias.

 

 

Tabela 10

Géneros jornalísticos aplicados nas peças sobre o Brasil e Brasil - Outros Países na amostra

(em número de peças e espaço ocupado em cm2)

 

 

Jornal de Notícias

O Correio da Manhã

Diário de Notícias

Público

Expresso

Visão

Grande

Reportagem

 

Total

16

11.023 cm2

100%

26

5.671 cm2

100%

35

6.950 cm2

100%

22

5.189 cm2

100%

8

2.483 cm2

100%

13

3.508 cm2

100%

7

22.344 cm2

100%

 

 

Nota/

notícia breve

 

4

25%

524

4,7%

 

 

16

61,5%

818

14,4%

 

18

51,4%

2.147

30,9%

 

 

15

68,2%

2.364

45,6%

 

1

12,5%

192

7,7%

 

 

3

23,1%

454

12,9%

 

 

 

-

 

Notícia desenvolvida ou reportagem

10

62,5%

7.307

66,3%

8

30,8%

4.163

73,4%

7

20%

1.889

27,2%

6

27,3%

2.270

43,7%

7

87,5%

2.291

92,3%

10

76,9%

3.054

87,1%

7*

100%

22.344*

100%

 

Entrevista

2

12,5%

3.192

29%

 

-

3

8,6%

1.162

16,7%

 

-

 

-

 

-

 

-

Peça de opinião

ou análise

 

-

 

-

5

14,3%

1.274

18,3%

1

4,5%

555

10,7

 

-

 

-

 

-

 

Peça documental

 

-

 

-

2

5,7%

478

6,9%

 

-

 

-

 

-

 

-

Outro tipo ou tipologia mista

 

-

2

7,7%

690

12,2%

 

-

 

-

 

-

 

-

 

-

------------------

------------------

------------------

------------------

------------------

------------------

------------------

------------------

Peça essencialmente descritiva ou documental

16

100%

11.023

100%

24

92,3%

4.981

87,8%

28

80%

5.198

74,8%

21

95,5%

4.634

89,3%

5

62,5%

1.729

69,6%

11

84,6%

2.978

84,9%

1

14,3%

2.208

9,9%

Peça essencialmente analítica

 

-

2

7,7%

690

12,2%

6

17,1%

1.255

18%

1

4,5%

555

10,7

3

37,5%

754

30,4%

2

15,4%

530

15,1%

6

85,7%

20.136

90,1%

Peça essencialmente opinativa

 

-

 

-

1

2,9%

497

7,2%

 

-

 

-

 

-

 

-

*Uma das peças classificadas como reportagens trata-se de um relato imaginário de um italiano na Amazónia, no século XVII.  Portanto, é uma reportagem ficcionada sobre a história do Brasil, mais concretamente sobre a delimitação das fronteiras do Brasil na densa floresta tropical.

 

 

Tabela 11

Géneros jornalísticos aplicados nas peças sobre Brasil - Portugal na amostra

(em número de peças e espaço ocupado em cm2)

 

 

Jornal de Notícias

O Correio da Manhã

Diário de Notícias

Público

Expresso

Visão

Grande

Reportagem

 

Total

20

5. 226 cm2

100%

16

4.535 cm2

100%

22

4.414 cm2

100%

12

3.636 cm2

100%

6

3.782 cm2

100%

7

1.854 cm2

100%

3

691 cm2

100%

 

Nota/

notícia breve

1

5%

100

1,9%

6

37,5%

856

18,9%

13

59,1%

1.232

27,9%

10

83,3

1.596

43,9%

 

-

1

14,3%

25

1,4%

 

-

Notícia desenvolvida ou reportagem

18

90%

4.576

87,8%

9

56,25%

3.203

70,6%

5

22,7%

1.097

24,8%

2

16,7%

2.040

56,1%

5

83,3%

2.814

74,4%

5

71,4%

1.801

97,1%

 

-

 

Entrevista

1

5%

540

10,3%

1

6,25%

476

10,5%

2

9,1%

1.732

39,2%

 

-

 

 

-

 

-

 

-

Peça de opinião ou análise

 

-

 

-

2

9,1%

353

8%

 

-

1

16,7%

968

25,6%

 

-

2

66,6%

139

20,1%

 

Crónica

 

-

 

-

 

-

 

-

 

-

1*

14,3%

28*

1,5%

 

-

 

Coluna

 

-

 

-

 

-

 

-

 

-

 

-

1

33,3%

552

79,9%

------------------

------------------

------------------

------------------

------------------

------------------

------------------

------------------

Peça essencialmente descritiva ou documental

20

100%

5.226

100%

16

100%

4.535

100%

20

90,9%

4.061

92%

10

83,3

1.596

43,9%

5

83,3%

2.814

74,4%

2

28,6%

305

16,5%

 

-

 

Peça essencialmente analítica

 

-

 

-

2

9,1%

353

8%

2

16,7%

2.040

56,1%

1

16,7%

968

25,6%

4

57,1%

1.521

82%

 

-

Peça essencialmente opinativa

 

-

 

-

 

-

 

-

 

-

1

14,3%

28

1,5%

3

100%

691

100%

*Excerto.

 

 

A análise das tabelas 10 e 11 permitem concluir que a maior parte da informação com menção ao Brasil na imprensa portuguesa foi constituída, predominantemente, por notícias e reportagens, havendo relativamente pouco espaço para peças de opinião ou análise ou mesmo para entrevistas.  O discurso foi, por seu turno, tendencialmente descritivo (84,1% do total de peças, contra 13,6% tendencialmente analíticas e 2,3% tendencialmente opinativas), o que contraria a tendência para a análise que autores como Pinto (1997) ou Barnhurst e Mutz (1997) identificam na imprensa de referência actual.  No entanto, existem algumas excepções dignas de menção, pois apontam no sentido enunciado por Pinto (1997) ou Barnhurst e Mutz (1997).  A Grande Reportagem assumiu uma vocação essencialmente analítica (na informação sobre o Brasil e Brasil - Outros Países) ou opinativa (na informação sobre Brasil - Portugal), embora isso se deva ao facto de essa revista publicar, quase exclusivamente, grandes reportagens e peças opinativas.  Mas, além da GR, o semanário Expresso (particularmente no que respeita à informação sobre o Brasil e Brasil - Outros Países), a revista Visão e o diário Público (especialmente na informação sobre Brasil - Portugal) também evidenciaram uma certa tendência para o jornalismo analítico, aliás em conformidade com o destaque que dão aos temas económicos, que constituem matéria-prima particularmente querida para a análise jornalística.

 

 

Tabela 12

Número total de fontes de informação explícitas nas peças sobre o Brasil e Brasil - Outros Países na amostra

 

 

Jornal de

Notícias

O Correio da Manhã

Diário de Notícias

Público

Expresso

Visão

Grande Reportagem

Número total de fontes

38

100%

17

100%

34

100%

32

100%

15

100%

20

100%

42

100%

Fontes portuguesas

16

42,1%

4

23,5%

8

23,5%

6

18,6%

6

40%

8

40%

6

14,3%

Fontes brasileiras

18

47,4%

10

58,8%

19

55,9%

21

65,6%

8

53,3%

10

50%

33

78,6%

Fontes não identificáveis/fontes anónimas/

outras fontes

 

4

10,5%

 

3

17,6%

 

7

20,6%

 

5

15,6%

 

1

6,7%

 

2

10%

 

3

7,1%

 

 

Tabela 13

Número total de fontes de informação explícitas nas peças sobre Brasil - Portugal na amostra

 

 

Jornal de

Notícias

O Correio da Manhã

Diário de Notícias

Público

Expresso

Visão

Grande Reportagem

Número total de fontes

36

100%

19

100%

23

100%

37

100%

11

100%

15

100%

5

100%

Fontes portuguesas

21

58,3%

6

31,6%

10

43,5%

18

48,6%

6

54,5%

8

53,3%

4

80%

Fontes brasileiras

12

33,3%

6

31,6%

6

26,1%

18

48,6%

5

45,5%

6

40%

1

20%

Fontes não identificáveis/fontes anónimas/

outras fontes

 

3

8,3%

 

7

36,8%

 

7

30,4%

 

1

2,8%

 

0

0%

 

1

6,7%

 

0

0%

 

 

A análise das tabelas 12 e 13 permite verificar que na informação sobre o Brasil e Brasil - Outros Países a maior parte das fontes era, naturalmente, brasileira.  Em concreto, das 198 fontes, 54 (27,3%) eram portuguesas e 119 (60,1%) era brasileira.  Não deixa, no entanto, de surpreender, com excepção do que sucede na Grande Reportagem e, com menor intensidade, no Público, o facto de ter sido usado um número significativo de fontes portuguesas na informação sobre outro(s) país(es), o que pode deixar antever que a informação sobre o Brasil e Brasil - Outros Países fabricada pela imprensa portuguesa de grande circulação possui uma faceta etnocêntrica.

Ao invés, no que respeita à informação sobre Brasil - Portugal já se compreende melhor o domínio relativo das fontes portuguesas (73 fontes, representando 50% do total, contra 54 fontes brasileiras, representando 37% do total), devido, provavelmente, à facilidade de contacto.  O Correio da Manhã e o Público apresentam, inclusivamente, um equilíbrio notório no que respeita à citação de fontes portuguesas e brasileiras.

 

 

Tabela 14

Tipo e relevância das fontes implícitas e explícitas usadas nas peças sobre o

Brasil e Brasil - Outros Países na amostra

(número de aparições nas peças e número de orações atribuídas à fonte)

 

 

Jornal de Notícias

O Correio

da Manhã

Diário de Notícias

Público

Expresso

Visão

Grande Reportagem

O próprio jornalista, colunista, colaborador ou correspondente

44

58,7%

123

62,4%

34

36,9%

111

49,3%

46

60,5%

183

61,8%

33

51,6%

122

67,4%

21

51,2%

103

71%

18

33,3%

87

56,9%

27

29,3%

398

63,8%

Especialistas ou comentadores (excepto se integráveis noutras categorias)

 

 

-

 

 

-

 

 

-

 

1

1,6%

1

0,5%

 

2

4,9%

2

1,4%

 

1

1,9%

2

1,3%

 

4

4,3%

18

2,9%

Opinador não regular

-

_

-

-

-

-

-

 

Governos

3

4%

9

4,6%

2

2,2%

3

1,3%

2

2,6%

4

1,3%

10

15,6%

19

10,5%

3

7,3%

5

3,4%

6

11,1%

13

8,5%

2

2,2%

3

0,5%

 

Funcionário superior

 

-

 

-

1

1,3%

1

0,3%

 

-

 

-

1

1,9%

1

0,6%

4

4,3%

14

2,2%

 

Partido político no poder

2

2,7%

5

2,5%

 

_

 

-

2

3,1%

3

1,65%

 

-

 

-

 

-

 

Partido político na oposição

2

2,7%

7

3,55%

 

-

 

-

 

-

 

-

 

-

6

6,5%

73

11,7%

Iniciativa privada, empresários e industriais, etc.

 

-

 

6

6,5%

12

5,3%

5

6,6%

16

5,4%

5

7,8%

7

3,9%

2

4,9%

6

4,2%

8

14,8%

16

10,5%

 

-

Sindicatos, uniões, federações e confederações sindicais ou de trabalhadores